As lições que ficam do
II Congresso Vocacional
José Lisboa Moreira de Oliveira, SDV

Acabamos de celebrar, em Itaici, Indaiatuba (SP), de 2 a 6 de setembro passado, o 2º Congresso Vocacional do Brasil. Éramos 404 pessoas representando todos os 17 Regionais do nosso país. Foi certamente um momento de graça. Tudo muito simples, mas, ao mesmo tempo, bastante significativo: as reflexões dos assessores, os trabalhos das oficinas, as celebrações, as confraternizações.

Quero destacar a participação dos Congressistas nos trabalhos das 20 oficinas, realizadas na parte da tarde, formadas cada uma delas por 20 pessoas, e, em seguida, nos quatro Mini-Plenários, reunindo cada um cerca de 100 pessoas. As reflexões que brotaram deste grande mutirão foram muito significativas, demonstrando a presença de pessoas sábias e realmente preocupadas com o futuro do Serviço de Animação Vocacional no Brasil.

Isso se refletiu na construção do Documento Final do Congresso, o qual pode ser definido como um texto feito por centenas de mãos. A Equipe de Redação teve que trabalhar muito para catalogar e depois incluir no Documento Final a quantidade de sugestões valiosas que chegavam a cada dia das Oficinas e dos Mini-Plenários. Mas o esforço valeu a pena, uma vez que as sugestões eram preciosas e contribuíram para o enriquecimento da reflexão e da ação em favor do amanhã da nossa Animação Vocacional. Fizemos o possível para não perder nenhuma proposta significativa.

1. A construção e o destino do Documento Final

Para entendermos tudo isso é importante conhecer como se deu o processo de elaboração do Documento Final desse 2º Congresso Vocacional. Já no primeiro dia de trabalho, a Equipe de Redação apresentou aos Congressistas a proposta de um “esquema mental” para a elaboração do mesmo. Tal esquema seguia basicamente a dinâmica do Congresso, a qual constava de três grandes momentos: o marco situacional (1º dia), o marco teológico (2º dia) e o marco operacional (3º dia).

Tendo sido acolhida esta proposta, após os trabalhos das Oficinas de cada dia, a Equipe de Redação procurava fazer uma síntese das contribuições dos assessores do dia e do resultado dos trabalhos das Oficinas e Mini-Plenários. Quase sempre foi preciso entrar pela madrugada para dar conta dessa missão. No dia seguinte, pela manhã, esta síntese já era entregue aos congressistas, os quais tinham até o final da tarde para dar uma olhada no texto e fazer as propostas, usando uma ficha de emendas apropriada. Por fim o texto foi analisado também por Regionais, de modo que um Documento construído por mãos que vinham de um país continental pudesse ter um olhar mais regionalizado.

No último dia do Congresso, logo no início da manhã cada congressista recebeu todo o texto e teve um tempo para uma leitura silenciosa. Após a leitura as pessoas puderam se pronunciar em Plenário para esclarecer e justificar as emendas que se referiam à mudança de conteúdo.Dessa leitura e desses pronunciamentos surgiram ainda dezenas e dezenas de sugestões que a Equipe de Redação, depois de avaliá-las, resolveu incluí-las no texto, uma vez que elas não alteravam a substância do Documento. Deixou para votação da Assembléia apenas duas delas que eram as mais conflitivas e notava-se uma falta de consenso. Uma que tratava do “pentecostalismo” na Igreja Católica e outra que se referia ao contra-testemunho. Após a votação foram aprovadas as emendas propostas pela Equipe de Redação e que aparecem no texto em sua versão definitiva.

As duas propostas conflitivas revelaram situações de ordem eclesiológica e que caracterizam a Igreja no Brasil neste momento. A primeira apontou para a permanência dos cenários de Igreja, apresentados pelo Pe. João Batista Libanio no 1º Congresso Vocacional em 1999. Eles não desapareceram e, sob certos aspectos, até se intensificaram, de modo particular o cenário da instituição e aquele “carismático”, entendendo este último termo de acordo com a reflexão feita por Libanio no livro Cenários da Igreja (Loyola), resultante da sua palestra no 1º Congresso. A segunda proposta era uma espécie de “espinho na carne” (Nasini) de muitos de nós que estávamos no Congresso, uma vez que abordava diretamente a questão dos escândalos que marcaram a Igreja nos últimos tempos, envolvendo sobretudo os ministros ordenados.

Penso que as duas sugestões aprovadas são bem significativas, uma vez que não ignoram o problema, mas evitam correr atrás de “bodes expiatórios”. Fica, porém, o desafio para a Igreja de saber encarar situações reais existente, sem querer “tapar o sol com a peneira”. Hoje existem realidades eclesiais que não podem ser negadas ou silenciadas. Precisamos ter a humildade de admiti-las e, com mais humildade ainda, buscarmos juntos as melhores soluções. Não se resolve o problema fazendo calar quem as denuncia, embora tenhamos sempre o direito de discordar da forma como são apresentadas. O único caminho é aquele de reconhecer a existência de tais situações e encará-las de frente.

É claro que tudo isso tem que ser feito com muito discernimento para não cometermos injustiças, colocando todas as pessoas no mesmo “caldeirão”. Às vezes, o que falta hoje na Igreja é a capacidade de fazer discernimento. Tomamos partidos e não queremos admitir a possibilidade de ver as realidades por outro ângulo, com o olhar de Deus, o qual não vê as aparências, mas a coisa na sua essência.

Na última sessão do Congresso houve a votação global do Documento Final. Foi aprovado por unanimidade. Em seguida o texto, já com as emendas sugeridas e aprovadas, foi entregue à Comissão Episcopal de Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada para os encaminhamentos finais. Segundo Dom Anuar Battisti, arcebispo de Maringá (PR) e Presidente da referida Comissão, o texto será encaminhado à Secretaria Geral da Presidência da CNBB e posteriormente submetido à avaliação do Conselho Episcopal de Pastoral (Consep). Depois de receber a aprovação da Presidência da CNBB, será então publicado.

Dada a riqueza e a simplicidade do Documento Final aprovado em Itaici, temos a certeza de que a Direção da CNBB não encontrará dificuldade em aprová-lo na íntegra. A Presidência da CNBB saberá levar a sério a ação do Espírito que nestes dias trabalhou mediante a reflexão e a oração de 404 pessoas, animadas pela presença de 17 bispos, alguns deles presentes o tempo inteiro conosco. As mudanças serão certamente para melhorar o estilo do texto ou até mesmo para torná-lo mais incisivo naquilo que os congressistas disseram. Aguardaremos com grande expectativa a sua publicação no desejo de torná-lo conhecido por todo o Brasil. A sua divulgação e o seu estudo irão dinamizar e enriquecer ainda mais a caminhada da animação vocacional no Brasil.

2. As propostas do 2º Congresso Vocacional

A riqueza dos cinco dias de Congresso foi condensada no texto entregue à direção da CNBB. Enquanto aguardamos a sua aprovação e publicação, já podemos partilhar com os que não estavam no evento, algumas das suas intuições mais significativas. Partindo do texto bíblico inspirador do 2º Congresso (Mt 20,1-16), o Documento Final foi pensado em quatro partes:

A primeira, atendendo ao marco situacional, tenta identificar as “praças” que hoje devem ser visitadas pelo Serviço de Animação Vocacional, a fim de levar a proposta do chamado divino. Algumas dessas “praças”, chamadas de “novos areópagos” por João Paulo II, foram identificadas: a educacional, a virtual, a eclesial, a da comunicação, a da política, a do mundo do trabalho, a dos cárceres e a cultural. Dois elementos dessas “praças” foram bem considerados: a pós-modernidade e a questão do retorno do sagrado.

Ainda nesta primeira parte o Documento tentou identificar alguns daqueles e daquelas que, nestas praças, estão “desocupados” a espera de alguém que os chame: os excluídos, os oprimidos, a família, os jovens, os freqüentadores de shoppings e de espaços de lazer, os povos negros e indígenas. São “rostos” paradigmáticos que representam concretamente a realidade de todos os demais vocacionados e vocacionadas. O objetivo do Documento não é dar um elenco exaustivo, mas chamar a atenção do Serviço de Animação Vocacional para situações bem concretas, que, às vezes, ainda passam despercebidas. Nestas praças existem muitas luzes e muitos sinais de esperança que iluminam e dão brilho a animação vocacional. Mas também sombras que ofuscam o trabalho vocacional e desafios que precisam ser enfrentados corajosamente.

Na segunda parte, para responder ao marco teológico, o Documento reflete sobre a eleição e a missão. Coloca como fundamento da vocação humana e cristã a experiência de ter sido amado primeiro pela Trindade. Tal experiência ajuda a pessoa a cultivar uma subjetividade aberta entendida como sensibilidade para com os clamores da humanidade. Assim, diz o Documento final, o apelo de Deus chega até nós através das provocações daqueles e daquelas que estão à margem. É o convite a amar os que estão nas “praças”, especialmente os que vivem em situações de dor e de sofrimento.

Mais uma vez ficou bem claro a necessidade de uma espiritualidade do seguimento que sustente as nossas ações e nos dê o ânimo necessário para enfrentar os desafios da missão de animar as vocações, num contexto nem sempre favorável. Fazendo a experiência da ternura da Trindade, o animador e a animadora vocacional serão capazes de assumir a vocação profética. Do encantamento brota a paixão pela vida, pela humanidade.

O marco situacional ocupou as duas últimas partes do Documento Final. Na terceira parte se faz uma reflexão acerca da necessidade e da importância de adotarmos um método pedagógico na animação vocacional. Logo em seguida se descreve brevemente as etapas do Itinerário Vocacional e se fala do significado do planejamento e da organização do Serviço de Animação Vocacional.

A proposta do Documento é muito clara: não se pode, hoje, fazer animação vocacional sem um prévio planejamento bem pensado, estruturado e discernido. Está na hora de superar toda forma de amadorismo e de improvisação. Precisamos nos educar para a mentalidade de planejamento participativo.

Na quarta e última parte do Documento os congressistas fizeram inúmeras propostas práticas para a concretização de ações em favor da animação vocacional no Brasil. Trata-se de indicações para a articulação de processos, mecanismos, estratégias, estruturas, organismos, responsáveis, que viabilizem de fato o dinamismo vocacional em nossas Igrejas. As sugestões concentram-se em quatro áreas: 1) método pedagógico; 2) planejamento e organização do Serviço de Animação Vocacional; 3) itinerário vocacional para jovens e para cada uma das vocações específicas; 4) lugar e missão do Serviço de Animação Vocacional na Pastoral Orgânica das Igrejas Locais e sua mística.

3. A contribuição específica deste Congresso

Cada evento eclesial, de acordo com o contexto em que é celebrado, traz sempre uma novidade; acrescenta algo novo ao processo de reflexão e de ação da comunidade. Também esse Congresso deixou a sua marca. Isso vai ser importante para o futuro da nossa animação vocacional no Brasil. Será um elemento a mais nesse avanço que estamos fazendo desde o Concílio Vaticano II, como fora bem salientado pelo Texto-Base. Após avaliar os trabalhos e as reflexões desse grande acontecimento da Igreja no Brasil, cheguei à conclusão de que a sua novidade se concentra em três elementos distintos, mas ao mesmo tempo complementares.

A primeira grande novidade foi a retomada da antropologia da vocação que em muitos lugares andava esquecida, devido às preocupações com a escassez de pessoal. O 2º Congresso reafirmou a necessidade de fazermos animação vocacional situada historicamente, contemplando a realidade concreta dos vocacionados e das vocacionadas.

A partir disso houve o resgate do cuidado, ou seja, do carinho que devemos ter pelas pessoas concretas que temos diante de nós. Não podemos tratar os vocacionados e vocacionadas apenas com os critérios das urgências institucionais. Isso pode contribuir para massacrar individualidades e para formar simulacros, pessoas que são somente “funcionárias do sagrado”.

A outra novidade, trazida por esse Congresso, foi o convite a visitar e conhecer as nossas “praças”, onde está a maioria absoluta dos vocacionados “desocupados”, sem ninguém para chamá-los. Infelizmente a Pastoral Vocacional ainda é muito igrejeira, contentando-se de chamar “coroinhas” e jovens de grupos “alinhados” que dizem “amém” e concordam com tudo. Ao identificar as “praças” ou “areópagos” de hoje o 2º Congresso Vocacional lançou o desafio de sairmos da segurança das nossas “vinhas” para irmos até as “praças” do mundo de hoje, onde há muita gente querendo trabalhar pelo Reino.

Os vocacionados e vocacionadas das nossas “praças”, muitas vezes são rotulados por nós de rebeldes, vazios, desequilibrados. Mas são amados e amadas pela Trindade e querem participar. Falta quem lhes chame. São, no dizer de Cencini, vocacionados “lobos”, isto é, críticos, provocadores, questionadores, mas talvez os melhores que temos. Não foi entre as pessoas de “má fama” (pescadores, zelotas, publicanos, prostitutas, etc.) que Jesus resolveu escolher os seus melhores vocacionados? E quando quis chamar uma evangelizadora, não escolheu alguém “triplamente qualificada”: samaritana, mulher e “experiente” na convivência com seis homens? Portanto, a provocação do 2º Congresso nos desinstala, mas, ao mesmo tempo, nos obriga a ter critérios mais evangélicos.

Por fim a terceira novidade foi, sem dúvida alguma, a insistência acerca da urgência e da necessidade do método pedagógico na animação vocacional. Penso que esta será a principal contribuição deste Congresso Vocacional para a Pastoral Vocacional de nossas Igrejas. É verdade que já vínhamos falando a algum tempo desta questão, mas ela sempre entrava nas reflexões de uma forma muito superficial. Desta vez esteve no centro, ocupando um dia inteiro do Congresso.

Tenho a convicção de que daqui pra frente esta temática será obrigatória em toda assembléia ou encontro dos diferentes âmbitos do Serviço de Animação Vocacional. Acredito que a partir deste 2º Congresso as instituições eclesiais irão se dar conta que não é possível continuar improvisando. Se quisermos enfrentar os desafios dos tempos atuais, temos que partir para um trabalho vocacional pensado, projetado, planejado e organizado, tendo como caminho indispensável o itinerário em suas quatro etapas significativas e complementares: despertar, discernir, cultivar e acompanhar as vocações.

Em tempos de globalização e de pós-modernidade pretender uma animação vocacional sem planejamento e sem organização é atentar contra a realidade, é atirar a esmo. Certamente não devemos e nem podemos burocratizar a Pastoral Vocacional. Mas seria muita ingenuidade pensar que é possível hoje atingir objetivos sérios, sem primeiro saber onde queremos chegar e quais meios utilizar para chegar ao destino final. Sem o planejamento e a organização da animação vocacional transformaremos a Igreja em “ônibus circular”: haverá sempre muita gente entrando, mas também muita gente descendo, abandonando a rota, não sendo fiel aos compromissos assumidos.

Conclusão: chamada a chamar

O 2º Congresso Vocacional do Brasil reafirmou a importância e o significado da Animação Vocacional em sua dupla dimensão. A primeira dimensão é a da articulação, projeção, planejamento e organização. A isso chamamos de Pastoral Vocacional. É uma atividade que diz respeito mais diretamente às lideranças da comunidade, particularmente os bispos e os presbíteros. Eles têm a obrigação de fazer funcionar muito bem a Pastoral Vocacional de suas Igrejas. Isso é parte essencial da missão deles. Não podem de forma alguma abdicar desse dever. Faz parte da sua condição de pastores do povo.

A segunda dimensão é a do envolvimento de toda a Igreja, enquanto ekklesía, isto é, “assembléia de pessoas convocadas”, na dinamização da consciência vocacional de si mesma e, portanto, de cada pessoa batizada. A isso nós chamamos de Serviço de Animação Vocacional. Trata-se do esforço da comunidade eclesial no sentido de fazer chegar a todas as pessoas batizadas, que dela fazem parte, a consciência de que são vocacionadas para a missão de anunciar a Boa Notícia de Jesus. Por essa razão é impensável, hoje, uma Igreja sem animação vocacional. Isso seria a negação de si mesma, da sua identidade.

O Documento Final do Congresso se conclui com uma série de propostas referentes ao método pedagógico, ao planejamento e organização, e à questão do itinerário. Não são receitas como poderiam pensar e querer algumas pessoas. São apenas sugestões nascidas da colaboração de cada um dos 404 participantes que lá estavam. Mesmo assim tais propostas podem contribuir muito para dinamizar o trabalho vocacional nas diversas regiões do nosso país. Estou certo de que cada diocese ou organismo eclesial saberá usá-las bem, fazendo as necessárias adaptações.


José Lisboa é consagrado presbítero da Sociedade das Divinas Vocações (Vocacionistas), natural de Araci (Bahia), doutor em teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), formador, autor de vários livros e dezenas de artigos sobre o tema da vocação e da animação vocacional, membro da Equipe de reflexão Teológica da CRB Nacional, assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003), Diretor-Presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV). Assessorou com o Pe. Ângelo Mezzari o terceiro dia do 2º Congresso Vocacional, quando se tratou do “marco operacional”. Na sua palestra abordou o tema da fundamentação teológica do Método Pedagógico da Animação Vocacional. Coordenou a Equipe de Redação do Documento Final do 2º Congresso.