Segunda-feira, 27 de Abril de 2015
Arquidiocese de Mariana

16/ago/2010
Os últimos serão os primeiros

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Para ilustrar as palavras de Cristo de que “Os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros” (Mt 20,16) nada melhor do que a lembrança do que se deu um dia lá no Calvário. É impressionante a conversão de Dimas alcançando o céu na última hora, entrando no paraíso antes dos próprios Apóstolos.

Estes foram os primeiros chamados e acabaram sendo os últimos a entrarem na glória  celeste, depois do Bom Ladrão. É de se notar que,  ao contrário de muitos contemporâneos de Cristo, Dimas não presenciara os prodígios estupendos que o Redentor fizera. Ele não estivera no Tabor contemplando as glórias do Transfigurado. Ele não vira Jesus andando sobre as águas. Ele não escutara a voz do Pai lá no Jordão e nem ouvira o testemunho do Batista sobre o Cordeiro de Deus. 

Os agraciados ausentaram-se, os amigos esconderam-se, as autoridades religiosas injuriaram, soldados romanos martirizaram , Cristo foi condenado e desprezado e apenas  este ladrão naquele derradeiro instante O reconhece como Rei poderoso e é ali o primeiro canonizado. Judas conviveu com Jesus e nem chegou a ser o último, pois acabou como condenado ao inferno, dado que, sendo, primeiro, Apóstolo se tornou, por último, ladrão e se suicidou. Misterioso é sempre o encontro de Jesus com a alma de cada um. Poderosa a influência da graça no coração sincero. 

De todas as verdades teológicas e filosóficas, uma das mais complexas é a conciliação da liberdade humana com a onipotência e a onisciência divinas. O tratado da graça é um dos mais difíceis de toda a Teologia. Regulando nossos destinos por um sistema de sabedoria que ultrapassa a capacidade cognoscitiva da razão humana, o Criador assiste o desenrolar dos atos do homem e só Ele tem poder  e sabedoria para retribuir a cada um, conforme Cristo deixou claro no Evangelho.

Os que contemplam os prodígios da misericórdia divina e se acham imersos nos favores celestes não podem facilitar, pois Cristo foi muito claro: “os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”. Deus quer uma adesão pessoal, consciente de cada um. É por isto que é tão beatificante a entrega a Ele pela fé e aí está o valor da virtude, pois é um ser dotado de inteligência que se volta para o seu Senhor. Aí a fonte de todo o mérito. Bem-aventurados, portanto, aqueles que se deixam iluminar pelas inspirações celestes e se imergem na beleza das mensagens de Jesus, na grandiosidade de sua bondade sem se preocupar em ser o primeiro ou em ser o último, mas simplesmente confiado nos critérios divinos, pois o Ser Supremo tem direito de fazer o que Ele quer com aquilo que Lhe pertence, como explicou Jesus.

São Paulo entendeu isto perfeitamente e simplesmente asseverou: “ Eu sei em quem eu confiei”. Deste modo, basta ao fiel a certeza da presença de Cristo nele, presença repleta de fé, pouco se preocupado a alma com a recompensa por suas ações, já que a contemplação do Senhor mantém viva o amor a Ele e isto já é a grande gratificação, ainda que outros o amem mais e sejam arrolados entre os primeiros no seu Reino.

O importante é mobilizar a inteligência, o coração, a vontade na busca de Deus. Então a dileção a Ele se medirá não pelo tempo durante o qual o amamos, mas pela intensidade com que Ele é amado, pois é isto que conta diante dele. Deste modo,  a alma se abandona a Ele  com um tal desapego que abre o coração para usufruir os dons celestiais sob as moções do Espírito Santo, ainda que outros sejam muito mais santos e virtuosos, mesmo tendo eles vivido menos tempo as realidades celestiais. Basta ao verdadeiro cristão a sede do Absoluto e a reta intenção de ser um bom servidor daquele que penetra fundo nos corações.

Tudo isto porque a alteridade deste Senhor se dá naquilo que se chama misericórdia, bondade, Ele que recompensa muito acima do que cada um possa merecer. Eis por que Ele pede um total despojamento interior, nada dele se exigindo como fizeram os impertinentes operários da parábola dos trabalhadores contratados para a vinha ( Mt 20, 1-16). Ele conhece todas as preocupações de cada um, todos os seus trabalhos e tal realidade basta a quem tem fé e se vê imerso num sábio discernimento de sua existência, mesmo porque é melhor ser o último lá no céu do que não poder lá entrar, Tal posicionamento aprofunda ainda mais o fundamento da humildade e já é,em si, um ato de humildade, virtude que faz merecer um bom lugar na Casa do Pai!.

É preciso se recordem sempre as palavras de Santo Agostinho: “Temo a Jesus que passa e que pode não voltar”. A passagem do Mestre divino é sempre uma passagem de graça, de bênçãos, mas Ele conhece o fundo dos corações e percebe se há ou não sinceridade neles. Todo cuidado, de fato, é pouco para não ser excluído nem do número dos últimos a entrarem um dia lá no céu.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

Deixe aqui seu comentário:

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Green IT Solutions Andreas Grundner