A psicopatia social

16/05/2017 às 16h15

Uma necessidade que nos caracteriza, que caracteriza a pessoa, é a necessidade do outro. De modo isolado, solitário, a vida humana não se torna possível. O bebê é dependente da mãe para a sobrevivência física, mas também para a sua construção psíquica, para tornar-se pessoa. O relacionamento interpessoal faz parte de nossa essência. Um cômpito de nosso desenvolvimento, certamente um dos mais significativos, é a nossa preparação e capacitação para as relações interpessoais. Da qualidade de nossas relações dependerá a nossa felicidade e realização. Mas a capacidade de construir bons relacionamentos não se restringe à busca do bem-estar pessoal. Dela depende a qualidade do tecido social, de modo que poderemos ter uma sociedade cujos indivíduos convivem harmonicamente, promovendo o bem-comum, ou poderemos ter uma sociedade destrutiva, em que as pessoas buscam egoisticamente o que lhes interessa, mesmo que isto signifique a destruição do outro.

O desenvolvimento humano tem por objetivo, naturalmente, a maturidade. Uma característica da maturidade é a capacidade de “amar e trabalhar”. Esta conceituação de maturidade, que teria sido apresentada por S. Freud, não tem nada de romântica. É desafiante. Amar significa atingir o ápice da capacidade de relacionamento interpessoal, não se restringindo, evidentemente, ao relacionamento conjugal. Como há muitas formas de relacionamento (entre amigos, irmãos, pais e filhos, etc), há igualmente muitos tipos diferentes de amor. O trabalho, por sua vez, é aqui entendido como a capacidade de oferecer uma contribuição para a evolução social. O amor e o trabalho, nesta compreensão, indicam a capacidade de sair de si, de colocar o outro em primeiro lugar. Psicologia e cristianismo, como vemos, em muitos aspectos caminham juntos.

Infelizmente, porém, nem sempre se atinge a maturidade no processo evolutivo. Muitas são as formas de imaturidade com as quais nos deparamos, e com níveis de gravidade muito variados. A psicopatia está entre as mais graves, certamente. Há indivíduos que se mostram incapazes de se adequar às normas sociais. Não somente são incapazes de amar, mas sistematicamente cometem atos de desrespeito ao outro, ao social. Em seu histórico há repetidos e variados comportamentos de tipo delinquente: engano, manipulação, fraude, roubo, assassinato. Há níveis diferentes de psicopatia, cuja distinção está na maior ou menor intensidade de manifestação das mesmas características.

O perfil do psicopata é marcado por outra peculiaridade: a ausência de sentimento de culpa, de remorso, de empatia. Isto significa que o psicopata é indiferente diante do sofrimento que provoca. Sua mente doentia é incapaz de se comover diante da dor do outro, qualquer que seja o outro. Não lhe importam as lágrimas, o pedido de clemência, a visualização do sofrimento e da morte. E não faz diferença se quem sofre é alguém indefeso, como uma criança, ou frágil, como um ancião. Trata-se de uma organização mental estruturalmente doentia, e as possibilidades de se pensar em recuperação, na “cura” de tais indivíduos, é mínima, infelizmente.

Penso que uma semelhante compreensão da psicopatia nos ajuda a compreender muitos fatos, presentes na sociedade atual. No Brasil, mas não somente. Qualificamos facilmente como psicopatas muitos indivíduos cujos crimes nos deixam atônitos diante da brutalidade, da agressividade, e da frieza de quem os comete. Em nosso Brasil, crimes desta natureza estão se tornando corriqueiros, de tal modo que a psicopatia, que sempre se apresentou como uma condição psicopatológica rara, está se tornando uma categoria sociológica. Trata-se de uma psicopatia social.

Não são menos destrutivos, desumanos e cruéis os danos causados pela corrupção generalizada que se instaurou no Brasil. É uma corrupção que mata, indiscriminadamente. Sem piedade. Pessoas de todas as idades. Por vezes a morte é lenta. Outras vezes a morte é súbita. As pessoas que provocam tais mortes, como no caso da psicopatia, observam o sofrimento, mas sem qualquer ressonância interna. São completamente ausentes o sentimento de culpa, o remorso e a empatia, como dito anteriormente. Na maioria dos casos, tais pessoas têm acesso aos cargos de poder por meio da mentira, do engano, da manipulação. Deste modo, e a partir destes fatos, acredito que a doença de que padece a sociedade atual é a psicopatia, um transtorno que está atingindo um número cada vez maior de indivíduos. Trata-se de uma sociedade psicopata. É este mal que temos de extirpar.


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