Terça-feira, 30 de Junho de 2015
Arquidiocese de Mariana

18/abr/2011
Homilia de dom Geraldo por ocasião da Missa do Crisma

Retomando as palavras do Profeta Isaías, e aplicando-as a si mesmo, diz Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção” (Lc 4, 18). Cristo Jesus é o Ungido do Pai, por excelência. Também nós cristãos fomos ungidos pelo Espírito de Cristo. Daí a riqueza do simbolismo que impregna esta celebração da Missa do Crisma. O óleo que hoje abençoamos e que ao final desta celebração terei a alegria de entregar pessoalmente a cada pároco, espalha-se por toda a nossa Igreja particular de Mariana, assim como se derrama a graça de Deus, pela ação do Espírito Santo, na vida dos cristãos e em nossas comunidades eclesiais.

Com seu extraordinário sentido simbólico, o óleo faz-nos entender a grandeza do mistério que celebramos na fé:

• O santo Crisma (mistura de óleo e perfume) simboliza o próprio  Espírito Santo com o qual Jesus foi consagrado para a missão messiânica. Como sabemos, Messias ou Cristo significa “ungido”.

• O óleo dos catecúmenos indica a fortaleza na luta da vida cristã.

• O óleo dos enfermos, usado pelos sacerdotes na unção dos doentes, é sinal de força, alívio, conforto, perdão e libertação.

Na vida quotidiana, o óleo é muitas vezes usado como lubrificante, perfume, alimento, para iluminação, com fins terapêuticos e estéticos, tendo cada um sua eficácia própria. O óleo penetra e impregna profundamente, dá beleza, brilho, agilidade e até protege da intensidade dos raios solares.

Na Bíblia, o óleo é símbolo do Espírito Santo: É usado como consagração (Gn 28,18; Ex 30, 22-23;  40,9; 1Sm 10,1; 1Rs 19,16; Sl 45,8; At 10,38),  como bênção  (Sl 133,2),   como cura  (Mc 6,13; Lc 10,34; Tg 5,14), sinal de hospitalidade (Lc 8,36-50)  símbolo do amor (Ct 1,12; Jo 12,1-8; Mc 14,3-9) e como conservação contra a corrupção (Mc 16,1; 14,3-9).

Jesus, o Ungido do Pai pelo próprio Espírito Santo, repete hoje para nós as mesmas palavras por ele pronunciadas na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; para proclamar a libertação dos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos” (Lc 4,18).  À luz dessas palavras, somos convidados a reassumir, com maior decisão e empenho, a evangélica opção preferencial pelos pobres e o serviço misericordioso à vida, sempre mais ameaçada, desrespeitada e destruída como recoramos na Campanha da Fraternidade deste ano, e como nos relembra o Documento de Aparecida que nos leva a “contemplar os rostos daqueles que sofrem. Entre eles, estão as comunidades indígenas e afro-americanas que, em muitas ocasiões, não são tratadas com dignidade e igualdade de condições; muitas mulheres são excluí¬das, em razão de seu sexo, raça ou situação socioeconômica; jovens que recebem uma educação de baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir em seus estudos nem de entrar no mercado de trabalho para se desenvolver e constituir uma família; muitos pobres, desempregados, migrantes, deslocados, agricultores sem terra, aqueles que procuram sobreviver na economia informal; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil, ligada muitas vezes ao turismo sexual; também as crianças vítimas do aborto. Milhões de pessoas e famílias vivem na miséria e inclusive passam fome. Preocupam-nos também os dependentes das drogas, as pessoas com limitações físicas, os portadores e vítimas de enfermidades graves como a malária, a tuberculose e HIV–AIDS, que sofrem a solidão e se veem excluí¬dos da convivência familiar e social. Não esquecemos também os sequestrados e os que são vítimas da violência, do terrorismo, de conflitos armados e da insegurança na cidade. Também os anciãos que, além de se sentirem excluídos do sistema produtivo, veem-se muitas vezes recusados por sua família como pessoas incômodas e inúteis. Sentimos as dores, enfim, da situação desumana em que vive a grande maioria dos presos, que também necessitam de nossa presença solidária e de nossa ajuda fraterna. Uma globalização sem solidariedade afeta negativamente os setores mais pobres. Já não se trata simplesmente do fenômeno da exploração e opressão, mas de algo novo: a exclusão social. Com ela a pertença à sociedade na qual se vive fica afetada na raiz, pois já não está abaixo, na periferia ou sem poder, mas está fora. Os excluídos não são somente “explorados”, mas “supér¬fluos” e “descartáveis” (DAp  nº 65).

Neste contexto, queremos renovar nossas promessas sacerdotais e reafirmar o compromisso em viver nosso ministério como fieis discípulos missionários de Jesus; zelosos pastores do Povo de Deus e misericordiosos servidores da vida.

No júbilo do Espírito que nos foi comunicado, nós proclamamos com fé: “A Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade. Amém” (Ap 1,5-6).

Homilia de D. Geraldo Lyrio Rocha, na Catedral de Mariana, na Missa do Crisma, aos 16 de abril de 2011. 

Fotos: Caetano Etrusco

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