A
dor da decepção
Pe.
José Antonio de Oliveira
Uma
coisa que dói muito é a decepção.
Embora se diga que não deveríamos ficar decepcionados
com os outros, e sim com a nossa incapacidade de compreender a
limitação do outro, a verdade é que, não
raras vezes, a decepção nos pega.
Pode ser que esperemos
demais dos outros, que tenhamos dificuldade de aceitar as pessoas
e a vida como são. Por um motivo ou por outro, muitas vezes
vemos frustradas nossas expectativas.
Numa linguagem
humana, a bíblia fala que o próprio Deus chega a
se decepcionar com o ser humano. Oferece a vida, investe, doa
e se doa, ama com amor infinito, e não é correspondido.
Claro que o amor é gratuito, e Deus nada nos cobra. Mas
nos faz perceber como às vezes somos tão mesquinhos
diante do muito que recebemos.
A primeira leitura
da missa do 27º domingo do tempo comum (Is 5,1-7) traz um
verdadeiro desabafo de Deus. Numa linguagem metafórica,
usando de uma comparação simples, o Senhor revela
a decepção com o seu povo.
Fala do amigo
que possuía uma vinha em terra fértil. Cercou e
preparou o terreno, tirou as pedras e espinhos, selecionou somente
mudas boas, fez tudo com perfeição. Sua expectativa
é que tivesse uma grande produção de uvas
especiais. E o que aconteceu? Só vieram uvas azedas.
E Deus, por meio
do profeta, faz este desabafo: “o que mais poderia eu ter feito
e não fiz?” Será que foi pouco?! E tem uma reação
muito humana: “vou desmanchar a cerca, derrubar o muro de proteção,
não vou mais podar nem lavrar, vou deixar que os espinhos
tomem conta”.
No final, explica
o sentido da história: essa vinha são vocês...
“Eu esperava frutos de justiça – e eis injustiça;
esperava obras de bondade – e eis a iniqüidade”.
Jesus retoma essa passagem no evangelho (Mt 21,33-43), para criticar
a omissão e descompromisso das lideranças. Fala
do proprietário que preparou uma vinha com todo cuidado
e a arrendou a alguns trabalhadores. No tempo da colheita, mandou
que alguns funcionários fossem buscar os frutos. Eles,
não só se recusaram a entregar os frutos, mas ainda
espancaram os enviados. Nem o filho do proprietário respeitaram.
O desfecho é
duro: “o Reino de Deus vos será tirado e será entregue
a um povo que produza frutos”. Jesus nos leva a pensar na resposta
que temos dado aos apelos que Deus nos faz, e como temos usado
os dons que dele recebemos.
Penso que, ao
olhar para este mundo, tão marcado pelas desigualdades
sociais, pela injustiça, pela corrupção,
pela negação do direito, Deus deve repetir em seu
coração o que dizia do povo de Israel: “Eu esperava
frutos de justiça, e vejo crescer a injustiça”,
a negação do direito, o desrespeito à vida.
Esperava obras de bondade, e vejo tanta maldade, intolerância,
agressão.
Imagino que Jesus,
ao olhar nossas comunidades, paróquias, movimentos, associações,
irmandades, nossas famílias, muitas vezes sente vontade
de repetir: “O Reino de Deus será tirado de vocês
e entregue a um povo que produza frutos”, um povo que não
tenha medo de denunciar e combater a maldade e a injustiça,
que demonstre sua fé muito mais com atitudes concretas
em favor da vida, do que com palavras estéreis e preces
vazias.
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