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Quando não se pode calar

Pe. José Antonio de Oliveira

      Um sintoma de maturidade e equilíbrio é saber falar quando necessário, quando conveniente, e calar quando é melhor ou mais prudente. É muito desagradável quando temos que reconhecer: falei o que não devia. Como o é também se temos que lamentar: Por que não falei? Por que me omiti?
      Pode acontecer que, por trás de um falso desejo de ajudar ou defender a verdade, machuquemos pessoas, sejamos indelicados, desrespeitemos a honra de alguém. Por outro lado, muitas vezes, em nome da delicadeza e da prudência, acabamos sendo omissos e até covardes.
      Mas, como saber o momento certo de falar ou de calar? Que critérios usar para distinguir o que deve e o que não deve ser dito? Naturalmente, temos que aprender o discernimento, buscar o equilíbrio, pedir a Deus o dom da sabedoria. Algumas dicas podemos encontrar na liturgia do 23º domingo do tempo comum.
      No livro de Ezequiel (33,7-9) Deus fala de maneira severa contra a omissão. Se percebemos que alguém está fazendo mal a si e aos outros, e não denunciamos ou o advertimos a respeito da sua conduta, Deus nos pedirá contas das conseqüências que vierem para a pessoa e para os outros. A pessoa será punida pelo mal que fez, e nós o seremos pela omissão. Se a pessoa não quiser ouvir, pelo menos estaremos com a consciência tranqüila. Deus espera que superemos a fraqueza e a covardia diante daquilo que deve ser dito e das atitudes que devem ser tomadas.
      Escrevendo aos Romanos (13,8-10), Paulo apóstolo nos exorta para que, tudo o que fizermos em relação ao próximo, o façamos por amor. Quem ama não machuca, não humilha, mas respeita e procura ajudar. “O amor não faz mal contra o próximo”, diz Paulo. Por isso, “não fiquem devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo”. Antes de falar alguma coisa com alguém ou a respeito de alguém, antes de decidir se calar sobre algo, pergunte-se sobre as motivações que tem, se é de fato por amor, pelo desejo de ajudar, de fazer bem.
      Jesus, no evangelho (Mt 18,15-20) aponta todo um caminho a ser percorrido diante do erro do próximo. “Se teu irmão pecar, vai corrigi-lo em particular. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas... Se não der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como um pagão ou um pecador”.
      Em primeiro lugar, percebemos que Jesus não aceita a omissão. Diante do mal, da injustiça, do erro, não se pode ficar indiferente. É preciso tomar alguma atitude. O primeiro passo é falar diretamente com a pessoa. Isso não é tão fácil. Se somos amigos, ficamos constrangidos. Se não, preferimos deixar pra lá. Mas quem é amigo de verdade vai querer ajudar. E o outro, se entende o que é amizade, irá agradecer pelo interesse. Não se trata, é claro, de julgar, mas ajudar.
Caso não dê resultado, Jesus sugere buscar outros caminhos. Chamar outras pessoas, ou comunicar aos responsáveis pela comunidade. Não se deve desanimar diante dos obstáculos.
      Interessante é o desfecho da orientação de Jesus. Se nada funcionar, trate a pessoa como se fosse um pagão ou pecador. E como Jesus trata essas pessoas? Com misericórdia e compaixão. É isso que Ele espera de nós.

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