Palavras
não bastam
Pe.
José Antonio de Oliveira
Considero
muito sugestivo um canto que usamos nas celebrações,
no momento da aclamação ao evangelho: “A vossa Palavra,
Senhor, é sinal de interesse por nós. Como um pai,
ao redor de sua mesa, revelando seus planos de amor...”
Assim é que vejo a
bíblia sagrada: um Pai zeloso, Mãe terna, ensinando
aos filhos como viver melhor, como crescer na união, como
encontrar o caminho para a felicidade. É o carinho de quem
se preocupa com o bem e o futuro das pessoas que ama.
E é isso que percebo
ao percorrer os textos bíblicos da celebração
deste 26º domingo do tempo comum, Dia da Bíblia. Cada
leitura revela uma cena diferente, onde uma situação
existencial da comunidade merece a atenção de Deus,
que vem orientar, chamar a atenção, corrigir, propor
caminhos.
O primeiro texto é
do livro de Ezequiel (18,25-28). O povo está exilado na
Babilônia. Longe da pátria, sofre as conseqüências
do exílio. Há muita dor e desânimo. A primeira
reação é a de se revoltar contra Deus. Ele
é culpado pelo sofrimento. Muitos chegam a dizer: “A conduta
do Senhor não é correta” (v. 25).
Por meio do profeta, Deus
procura mostrar que toda aquela dor é conseqüência
da maldade, da injustiça, da falta de compromisso do próprio
povo. Deus não quer o sofrimento e a morte, porém,
a irresponsabilidade de muitos acaba gerando tudo isso. E, muitas
vezes, os “justos pagam pelos pecadores”. Diante daquela situação
dolorosa, o povo deve aprender a lição. Se tiver
a humildade de reconhecer os próprios erros, arrepender-se
e voltar para o caminho da justiça, a realidade irá
mudar. Culpar Deus pelo mal que nos acontece é muito cômodo.
Não é melhor repensar a nossa prática?!
A segunda leitura (Fl 2,1-11)
deixa transparecer também o retrato de uma comunidade marcada
pela competição, pela vaidade, orgulho, busca de
status, disputa de poder. Podemos imaginar as conseqüências
de tudo isso. Paulo, em nome de Deus, procura orientar a comunidade
para que busque outro caminho: “Tenham entre vocês os mesmos
sentimentos que existem em Jesus Cristo” (v. 5).
Que sentimentos são
esses? O apóstolo explica: Jesus esvaziou-se de qualquer
sentimento de grandeza e de poder, para assumir o papel de servo
ou, mais ainda, de escravo. Seu exemplo nos convida a viver na
harmonia, na procura da unidade, na humildade; cada um considere
que o outro é mais importante. Nada de competição
ou vaidade. Isso só atrapalha a vida. Eis aí uma
grande lição para nós e nossas comunidades!
A terceira cena encontra-se
no evangelho (Mt 21,28-32). Havia, naquele tempo, o grupo dos
“santos”: os sacerdotes, que representam o poder religioso, e
os anciãos do povo, representantes do poder econômico.
De outro lado, o grande grupo dos marginalizados e excluídos:
cobradores de impostos, prostitutas, pobres. Com uma simples história,
Jesus desmascara aquela hipocrisia. Mostra que conhecer as leis,
pregar bonito, decorar a bíblia, nada disso é garantia
de vida digna ou certeza de salvação. O que vale
é a prática da justiça, do amor, da solidariedade.
As palavras se perdem. O que a pessoa é vale mais. O que
conta são as atitudes.
O Dia da Bíblia nos
deixa estas perguntas: quando nos vêm os males, colocamos
a culpa em Deus, ou procuramos assumir nossa responsabilidade?
Como são as relações em nossa comunidade,
em nosso grupo, na família? Nossa fé é feita
de palavras e orações, ou de atitudes concretas?
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