Tu
me seduziste, Senhor!
Pe.
José Antonio de Oliveira
“Seduziste-me,
Senhor, e deixei-me seduzir” (Jr 20,7). Essa afirmação
do profeta Jeremias é muito forte. Sedução
é algo que diz muito. De um lado, revela a força
e o poder de alguém ou de algo que, de alguma forma, domina
o outro. Chega ao ponto de deixar a pessoa sem ação;
como se fosse levada por aquilo que a seduz.
Muita coisa pode nos seduzir.
Alguns se deixam levar pelo desejo incontrolável da fama,
da riqueza, do poder, do status. Outros se deixam fascinar pela
beleza, pela poesia, pela música. Há muitos que
são seduzidos por outra pessoa.
A palavra de Jeremias não é proferida num contexto
de alegria, de contentamento. É mais um desabafo. Ele já
não agüenta mais as zombarias, as chacotas, as perseguições.
“Todos zombam de mim”. Está cansado de passar vergonha.
Mas por quê?
É que Deus o seduziu.
Foi mais forte que ele. O poder de Deus o dominou. Agora, já
não consegue mais deixar de falar com Deus e falar de Deus
aos outros. Não consegue se calar diante daqueles que desrespeitam
o próximo e ferem os planos de Deus. A vocação
para arrancar e destruir a maldade e, em seu lugar, plantar o
bem e a justiça; o compromisso de demolir e derrubar os
muros do orgulho, da prepotência, da ambição,
para, em seu lugar, edificar o direito e a solidariedade; tudo
isso fala mais alto que a tentação de se acomodar
(cf Jr 1,10).
Ele sente “um fogo ardente
penetrar todo o corpo”, inundar seu coração (cf
Jr 20,9). Um ardor que o envolve de todos os lados. A reação
é um misto de raiva, por se sentir dominado, e de prazer,
por experimentar a beleza de estar envolvido pelo amor de Deus.
Mas, o que tudo isso tem a
ver conosco? Estamos chegando ao final do mês de agosto.
Neste período, pudemos refletir sobre a grandeza da vocação.
O último domingo nos convida a olhar de modo especial para
a vocação laical, ou seja, das pessoas que, pelo
batismo, são chamadas a fazer parte da família de
Deus, experimentar o seu amor, testemunhar a fé.
O que distingue a vocação laical de outras está
na forma de exercer o ministério. Alguns ministros recebem
o sacramento da ordem para presidir a celebração
dos sacramentos, transmitir o perdão em nome de Deus, articular
os vários serviços. Outros se consagram a Deus pelos
votos de pobreza, castidade e obediência, para se tornarem
sinais da radicalidade evangélica, fazendo-se livres em
relação aos bens materiais, aos outros e a si mesmos,
para melhor amar e servir.
Os leigos e leigas assumem
o ministério de ser fermento no meio da massa, sendo presença
evangélica em todos os ambientes, ajudando pessoas e instituições
a crescerem na fé, no amor, no compromisso. São
como o sal que evita a corrupção e dá sabor,
combatendo toda espécie de mal, toda injustiça,
toda desigualdade e exclusão, para tornar a vida mais agradável
e a sociedade mais humana. Tornam-se luz no meio de uma sociedade
onde as trevas do pecado, da violência, da droga, teimam
em se alastrar.
Embora tenhamos carismas diferentes
e assumamos ministérios diversos, o que nos une é
muito maior. Amamos e somos amados pelo mesmo Deus, recebemos
um só batismo, professamos uma única fé;
e todos fomos seduzidos pelo amor de Deus revelado em Jesus Cristo.
É muito bom poder dizer, com alegria no coração:
“Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir!”
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