Pra
não dizer que não falei da crise
Pe.
José Antonio de Oliveira
Nesses
tempos de turbulência no cenário político
nacional, é impossível ficar alheio à crise,
deixar de expressar nosso pensamento. Não sou especialista
em política, mas, como cidadão, e a partir daquilo
que leio, ouço e reflito, creio que posso apresentar alguns
elementos que contribuam para a reflexão.
Fatos e notícias não
faltam. Mas poucos têm acesso à informação
crítica, à análise mais profunda, que ajude
a fazer da crise um processo de amadurecimento. Sem a pretensão
de preencher tal vazio, quero deixar fluir algumas idéias.
Em primeiro lugar, não
podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que as elites
brasileiras iriam entregar o poder político e econômico
a um movimento que surgiu da base; entregar o comando do Brasil
a um homem simples do povo. Aqueles que defendem seus próprios
interesses, que desejam sugar o máximo do povo, jamais
irão abrir mão do poder. É natural, portanto,
que as elites façam de tudo para minar qualquer poder popular,
desmoralizar toda liderança que venha da base. O reconhecimento
nacional e o respeito internacional por um operário que,
com todos os seus limites, fala a língua do povo e se expressa
com o coração, incomoda os intelectuais.
Não é por acaso
que haja um esforço muito maior dos políticos profissionais
e da grande imprensa em denunciar irregularidades de pessoas ligadas
ao atual Governo do que dos governos anteriores. Embora haja corrupção
comprovada em pessoas ligadas ao PT – e deve haver apuração
e punição exemplar, houve casos muito piores em
gestões passadas, como o projeto de reeleição,
privatizações e tantos escândalos, que não
receberam o mesmo tratamento sensacionalista da imprensa e dos
políticos que agora se apresentam como porta-vozes da ética.
Não se pode pensar
também que o Brasil seja o que se vê na TV. Não
é só novela, violência e corrupção.
Nossa Nação é a soma de muita gente honesta,
trabalhadora; de muitos que dão o seu suor, pagam impostos,
sonham e lutam por um país mais justo e solidário.
Mesmo por parte do Governo.
Embora não se divulgue, temos consciência de que
nunca houve tantos recursos e tanto interesse pelo social, tantos
projetos voltados para os mais simples e pobres.
Certamente você já
ouviu falar ou até participa de algum projeto, como o “Conselho
de Segurança Alimentar e Nutricional”; “Bolsa Família”
(7,5 milhões de famílias); “Compra Direta”; “Telecentros”;
“Escola de Fábrica”; “Geração de emprego
e renda”; Pronaf (Agricultura familiar: R$9 bilhões) Fundeb,
faculdades populares; vários projetos comunitários.
Não somos advogado
de defesa do Governo, e estamos consciente de que Lula frustrou
muita gente. Os de direita, que achavam que ele fosse bagunçar
o Brasil e desestabilizar a economia, e os de esquerda, que sonhavam
uma mudança estrutural rápida e radical, rompimento
com bancos internacionais, suspensão do pagamento da dívida
externa, reforma agrária de fato, reforma política
etc. Sabemos que é preciso avançar muito.
Mas também aí
não se pode ser ingênuo. É impossível
implantar um governo socialista numa sociedade toda ela estruturada
no capitalismo neoliberal. Num mundo globalizado, nenhum governo
consegue agir isolado do contexto internacional. O presidente
Lula só teria condições de ousar mudanças
mais radicais se pudesse contar com o respaldo de uma população
consciente e articulada. E ela não existe. Nosso povo é
ainda facilmente manipulável.
Além da falta de respaldo
popular, da estrutura econômica esmagadora (os juros da
dívida externa consumiram, em 2004, R$124 bilhões),
o governo ainda esbarra no próprio sistema político
brasileiro, marcado pelo clientelismo e tantos vícios.
Basta ver que, para aprovar seus projetos, mesmo os de interesse
coletivo, tem de pagar alto preço na barganha com os partidos
no Congresso.
De tudo o que estamos vivendo
ficam ainda algumas lições: não vale a pena
buscar o poder a qualquer custo, abrindo mão de princípios
e critérios, fazendo alianças que comprometem; o
poder e o dinheiro corrompem facilmente as pessoas; o que nos
sustenta na vida e na missão é o verdadeiro idealismo
e a mística; não é hora de desanimar ou entregar
os pontos: a construção do Brasil que queremos não
depende dos políticos, mas está em nossas mãos.
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