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A voz que clama, a Palavra que fica

Pe. José Antonio de Oliveira

      “Esta é a voz que clama no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas’” (Lc 3,4). Essa frase de Isaías, que os evangelhos retomam e colocam na boca de João Batista, resume bem o espírito do advento e de toda a preparação que fazemos para celebrar o natal de Jesus. No evangelho de João, o precursor fala claramente: “Eu sou a voz que clama...” (Jo 1,23).
      Na perspectiva do quarto evangelho, essa frase toma um sentido ainda mais bonito e profundo. É que João define Jesus como sendo a Palavra de Deus, o Verbo encarnado que assumiu a condição humana e veio morar no meio de nós (cf. Jo 1,14). Assim, ele é a voz, Jesus é a Palavra.
      Santo Agostinho, em seus sermões, faz um lindo paralelo entre uma e outra, dizendo que “a voz é passageira, a Palavra é eterna”. Se comunico uma mensagem, a voz logo desaparece, mas a palavra permanece. A Palavra vem antes e continua depois. Quando penso em dizer algo, “a palavra já está em meu coração”. Se quero me comunicar com alguém, o que desejo é que a palavra que já existe em meu coração chegue ao coração da outra pessoa.
      Aí está a beleza do mistério da encarnação: o Pai tem uma Palavra no coração: o seu próprio Filho, Palavra de salvação, de ternura, de amor, de justiça, de vida. E quer que essa Palavra chegue ao coração de todo ser humano. Então faz com que ela se encarne, assuma um corpo, expressão, gestos, entre em nossa história e venha caminhar conosco; faça parte de nossa vida.
      Mas, para que a Palavra chegue aos corações, Deus precisa da voz. Ele nunca age sozinho. Sempre escolhe pessoas para serem sinais e instrumento de sua presença e ação no mundo. E são muitas as que aceitam e assumem essa missão. E reconhecem, com humildade, sua condição de instrumento.
      É assim que age João Batista: Eu não sou o Cristo, não sou o profeta; sou apenas a voz que se vai; ele é a Palavra que fica e transforma a vida, os corações. Ele é o esposo, eu sou apenas o amigo do esposo. Por isso, a minha alegria é que ele cresça e eu diminua (cf. Jo 3,20-23.29-30).
      Essa voz nos convida ainda hoje a preparar os caminhos do Senhor. Deus quer vir ao nosso encontro, se encarnar em nossa vida, nos transformar. Mas é necessário abrir o caminho para que ele venha. Deus não impõe, mas respeita a liberdade e a vontade de cada pessoa. Preparar o caminho, segundo o próprio Jesus Cristo, é estar atentos aos sinais, vigilantes, orando sem cessar, disponíveis para servir, abertos para acolher, solidários com o próximo.
      A voz de João Batista já se calou, desapareceu. Cumpriu sua missão. Hoje, somos nós a voz que Deus procura para chegar a outros corações, a outros ambientes. A Palavra está aí, pronta para se encarnar, para perdoar, para promover a justiça, espalhar a esperança, anunciar o sonho do Reino, congregar os povos, construir a paz. Quem se oferece para ser a voz? Voz que pode ser passageira sim, mas que carrega em si o grande poder de transformar e de construir.

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