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É possível separar o joio do trigo?

Pe. José Antonio de Oliveira

      No evangelho do último domingo refletimos sobre a força da semente e sobre a importância de semear. Quanta coisa boa podemos semear em nossos ambientes!
      A liturgia do 16º domingo do tempo comum nos chama a atenção para uma realidade que preocupa e desafia. Por mais que procuremos semear o bem, no campo do mundo crescerá também o joio. É o alerta de Jesus.
      É bom lembrar que o trigo representa o sustento, a fartura, a vida. O joio é uma erva daninha que, quando pequena, se confunde com o trigo, mas pode sufocá-lo e impedir seus frutos. A diferença entre ambos só se revela clara quando surgem os frutos.
      Jesus diz que haverá sempre alguns “inimigos” dispostos a semear o joio no meio do trigo. A primeira tentação dos bons semeadores é arrancar logo o joio. Mas há o risco de, ao tentar arrancar a erva, arrancar junto a planta boa. É melhor deixar que cresçam juntos. Aí está o retrato de nossa sociedade: bons e maus semeadores, trigo e joio, justos e injustos, exploradores e vítimas. Não só vivem juntos, mas, muitas vezes, se confundem. Como discernir? Que atitudes tomar?
      Ao olharmos para os nossos políticos, essa realidade se torna bem explícita. Mas não é só aí que o mal se espalha. Em todos os níveis e ambientes da nossa vida, a realidade é a mesma. O joio da injustiça, corrupção, violência, miséria, fome, doença, egoísmo, insensibilidade, consumismo cresce cada vez mais.
      Nossa reação pode transitar entre dois extremos: a indiferença covarde ou a precipitação irresponsável; ficar totalmente alheios a tudo, ou querer fazer a justiça com as próprias mãos. Podemos também cair na ilusão de pensar que somos trigo, puros, santos, vacinados contra o mal e a injustiça. Pura ilusão. Nem mesmo contra a corrupção estamos vacinados. É como diz o povo, em sua sabedoria: “não posso afirmar que desta água não beberei”.
      Jesus nos ensina, com essa parábola, a reconhecer que, também no campo do nosso coração, crescem joio e trigo. A pretensão ou, mais ainda, a presunção de nos considerarmos justos e bons, pode nos levar ao orgulho, à impaciência e intolerância. Além do mais, ninguém de nós tem autoridade para julgar ou condenar.
      Naturalmente, não podemos também nos omitir, ignorar a injustiça que fere os princípios evangélicos e humanitários, que nega ou viola os direitos fundamentais das pessoas, também e, sobretudo, dos pobres e indefesos. Não podemos nos calar diante da corrupção que mina as bases de uma sociedade verdadeiramente humana. Não temos o direito de assistir passivamente a tantas atitudes de desrespeito à vida e à pessoa.
      Mas qualquer atitude de nossa parte deve ser marcada pela justiça, característica fundamental do Reino; pela paciência, virtude exigida de quem semeia, para não apressar e comprometer a colheita; pela misericórdia, pois o próprio Deus é misericordioso; pelo discernimento, que nos ajuda a perceber nos frutos onde está o trigo e onde está o joio.
      Finalmente, mais do que ficar preocupados com aqueles que semeiam o mal, cabe a nós impedir que ele se alastre e, sobretudo, semear sempre a boa semente.

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