O
medo que mata
Pe.
José Antônio de Oliveira
Estava
tudo muito bem planejado. Jesus volta ao Pai, promete permanecer
conosco em espírito, cria um novo corpo para garantir a continuação
da sua obra aqui na terra. A partir da Ascensão, a Igreja
seria o seu corpo para o mundo. Por meio dela Jesus poderia dar
continuidade à sua missão: anunciar a Boa Nova do
Reino, revelar o rosto do Pai, perdoar os pecados, curar os males,
abençoar as pessoas, levantar os caídos, alimentar
a comunidade cristã, promover a justiça e a vida para
todos.
Contudo, parece que algo não
deu certo. A impressão é de que tudo não passará
de um sonho bonito, uma utopia a mais. Maior que o sonho dos discípulos
fiéis é a rejeição de uma sociedade
egoísta e injusta; maior que seu desejo de construir algo
novo é o medo de enfrentar aqueles que já haviam matado
o Senhor da História. Medo que poderia abortar um sonho grandioso,
cuja gestação estava apenas começando.
A fotografia mais fiel dessa realidade
nos é revelada por João: “estando fechadas,
por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos
se encontravam...” (Jo 20,19). Ali estavam os guardiães
do sonho de Jesus, os portadores da utopia do Reino. Trancados e
medrosos. Fechados ao mundo e à luz, sem poder respirar novos
ares. O medo sepultava o sonho e impedia de brotar a semente do
Reino.
Mas Jesus não os deixaria órfãos;
já o havia prometido. De repente, tudo muda. O Espírito
Santo é derramado sobre a comunidade reunida. O medo dá
lugar à alegria. No lugar da angústia e da inquietação
ressurge a paz. A coragem escancara as portas e o ardor lança
os discípulos na praça. A linguagem da timidez dá
lugar à linguagem do amor, que todos entendem. A Babel se
transforma em Pentecostes.
Essa é a mudança radical
que o Espírito promove nas pessoas e comunidades que o acolhem:
transformar homens medrosos em ardorosos profetas; grupos fechados
em comunidades missionárias; mentes atrofiadas em pés
que se lançam; corações frios em mãos
solidárias.
É esse o Pentecostes que Jesus
quer renovar a cada dia, em cada pessoa, em cada comunidade. Se
“toda ação de Deus passa por nossas mãos”,
se “Jesus Cristo chega até onde nós o levamos”,
Ele sabe que, sem esse Espírito de sabedoria, de fortaleza,
de piedade, a missão de promover a vida em abundância
estará, certamente, comprometida.
E hoje, olhando para nossa Igreja,
ainda tão fechada sobre si mesma, tão tímida
diante dos desafios do nosso tempo, tão pouco profética
e samaritana, tão hierárquica e pouco encarnada; olhando
para nós cristãos, tantas vezes acomodados em nossas
devoções, fechados em nossa indiferença, insensíveis
diante de tantas injustiças, impotentes diante da corrupção
e da falta de ética, inseguros diante dos poderosos, acomodados
e satisfeitos com o que já conquistamos, a pergunta que me
vem é esta: será que não estamos necessitando
urgentemente de um novo Pentecostes?!
Ou ainda uma outra pergunta: se “a
cada um é dada a manifestação do Espírito
em vista do bem comum”, será que a sociedade percebe
uma diferença marcante entre as pessoas que foram batizadas
e crismadas e aquelas que não receberam o Espírito
Santo?! Você faz diferença?!