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Os cristãos e a política


Pe. José Antônio de Oliveira

    Passado o tempo das convenções partidárias e do registro das candidaturas para as eleições municipais de outubro, começa oficialmente a campanha eleitoral. Não há como ficar neutro ou indiferente a tudo o que irá acontecer. Trata-se de algo que envolve toda a vida de cada pessoa e de cada comunidade. Embora os candidatos “roubem a cena” e fiquem em destaque em todos os espaços, na verdade os cidadãos e cidadãs é que são os verdadeiros protagonistas desse processo.
   
Talvez passe despercebido para a maioria o grande poder que carregamos nas mãos. De fato, somos nós que, com o nosso voto, iremos dar, como diz Frei Betto, “emprego e poder” a algumas pessoas do nosso município. E da atuação dos mesmos dependerá em muito a qualidade de vida da nossa comunidade, o atendimento aos serviços fundamentais (saúde, educação, transporte, moradia, segurança), a participação popular, a liberdade de pensamento e ação, o exercício da cidadania.
   
Diante disso, qualquer pessoa responsável percebe que é impossível ficar indiferente, alheio a tudo, deixar acontecer, ignorar o processo. Se a pessoa tem uma consciência cidadã e/ou um engajamento cristão, estará certamente atenta para dar a sua valiosa contribuição.
   
Algumas perguntas surgem naturalmente: de que forma irei participar desse processo? O que posso fazer? Se participo de algum grupo na Igreja ou na comunidade, qual será nossa postura e nossa contribuição?
   
Há muitos que ainda não conseguem entender bem a ligação entre a religião e a política. Alguns, inclusive, chegam a dizer que “uma coisa não tem nada a ver com a outra”. “Religião e política não se misturam”. Ledo engano. Ambas têm como objetivo a busca do bem comum, a construção da justiça, a promoção da vida e da dignidade para todos. A palavra “religião” significa “re+ligar”. Por isso, a fé é uma forma de possibilitar a união entre as pessoas, entre o ser humano e Deus, entre a vida e a expressão religiosa. E o grande exemplo que temos é o próprio Jesus Cristo, que não morreu de velhice ou de doença, mas por defender a causa da vida e da justiça, por enfrentar lideranças políticas e religiosas descomprometidas com a vida do povo.
   
No caso da Igreja católica, inúmeros documentos e pronunciamentos deixam clara a exigência do envolvimento cristão no processo político de organizar a sociedade. Expressam o grave dever de levar para a realidade social, econômica e política os valores evangélicos. Não é à toa que a CNBB insiste em dizer que “a política, exercida com honestidade e retidão, pode se tornar uma forma sublime de exercer a caridade” (Documento 67, n. 2). Paulo VI, falecido em 1978, já afirmava com muita propriedade: “A política é uma das mais altas expressões da caridade cristã” (cf Documento 82 da CNBB, p. 24).
   
O Documento de Medellín, fruto da Segunda Conferência do Episcopado Latino-americano, afirma: “A carência de uma consciência política torna indispensável a ação educadora da Igreja, a fim de que os cristãos considerem sua participação na vida política como um dever de consciência e como o exercício da caridade, em seu sentido mais nobre e eficaz para a vida da Comunidade”. (Capítulo I, número 2) E o papa João Paulo II dizia: “Os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na política” (Christifideles Laici, 42).
   
Diante de tanta corrupção e falta de seriedade por parte de muitos eleitos, é natural que haja um certo “desencanto e diminuição da confiança do povo nos políticos, nas instituições públicas e nos três poderes do Estado” (Diretrizes da CNBB – Doc 82, n. 33). De fato, percebe-se em muitos, inclusive agentes e militantes, o cansaço, a sensação de impotência, o desânimo. Isso, porém, nunca será motivo suficiente para nossa omissão ou descrédito. Mesmo sabendo que em muitos lugares o coronelismo, a pressão e o medo dificultam o exercício da liberdade, ninguém tem poder para mudar nossa consciência e impedir nossa coerência.
   
Para quem é candidato(a), fica o desafio de fazer a diferença pela honestidade e transparência. Para nós, eleitores(as), há pela frente um bom tempo de debates, reflexões, pesquisa. Dá para conhecer melhor os candidatos, os partidos, os programas e compromissos de cada um. No caso das eleições municipais é ainda mais fácil. Os candidatos são mais próximos. Conhecemos sua história, seu passado, seu trabalho, seu compromisso com a comunidade e com a ética. Dá para escolhermos de maneira consciente e madura, não só aquele que irá responder pelo Executivo, mas, sobretudo, aqueles e aquelas que assumirão o legislativo do Município. Não podemos nos omitir! Qual será a sua contribuição?

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