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É tempo de reflexão e de construção


Pe. José Antônio de Oliveira

    “A minha vida tem um punhado de estradas inacabadas”, dizia o Pe. Dalton Barros. É uma grande verdade. Temos muito caminho pela frente, muito o que aprender e crescer. Somos, todos nós, seres inacabados, em construção. E este Tempo Pascal, sobretudo a Quaresma, pode ser uma ótima oportunidade para buscar esse crescimento.
   
Um aspecto que precisa ser sempre trabalhado, sobretudo nos dias de hoje, é a questão da própria identidade. “Vivemos mais uma época de identificações”. É como se eu não pudesse ser eu mesmo, mas aquilo que querem de mim. Isso, naturalmente, gera incertezas e angústias. E traz o grande desafio de trabalhar a própria identidade. Quem sou? Para onde vou? Para que eu existo?
   
Como conseqüência, surge um outro desafio: a busca do equilíbrio entre a subjetividade, que é um valor, e o subjetivismo, que pode se transformar numa espécie de narcisismo, um cuidado doentio comigo mesmo. Equilíbrio entre ser sujeito, que é uma virtude, e o querer ser dono da minha vida e da minha história, como se não fizesse parte de um todo, como se não estivesse nas mãos de Deus.
   
O fato é que vivemos numa sociedade do espetáculo, dentro de uma cultura do narcisismo e do consumismo. Tenho que possuir a melhor casa, o melhor carro, o melhor som. E, no meio de toda essa epidemia, nos damos conta de que é muito baixa a nossa “imunidade”; nos deixamos envolver muito facilmente por um mal que nos domina, como se não tivéssemos forças para reagir. Por outro lado, se não consigo encarar e superar essa doença, minha vida cristã estará seriamente comprometida. O outro não terá espaço no meu coração. Nem mesmo o Outro - que é Deus, e que se manifesta justamente no próximo.
   
Embora a individualidade e a subjetividade sejam valores a serem preservados e trabalhados, o narcisismo nos leva a um cuidado exagerado e doentio de nós mesmos, deixando pouco espaço para a gratuidade, o serviço, a renúncia. E, sem esses valores, qualquer estilo de vida fica comprometido; não só do celibatário, mas também dos casados e de qualquer outra pessoa.
   
Nessa estrada do crescimento interior, de busca da maturidade humana, um outro mal que pode nos corroer por dentro é o ressentimento. A sensação de que a vida foi madrasta comigo; não recebi o que merecia; não valeu o esforço. Esse sentimento pode levar à desilusão ou frustração, à raiva e, até mesmo, à depressão. O remédio para esse mal é colocar os pés no chão, evitar o apego a uma imagem falsa que faço ou que fizeram de mim; ter uma memória agradecida de tudo o que aconteceu na minha vida, abrir-me ao amor infinito e gratuito de Deus. É ser capaz de dizer, com convicção: apesar de tudo o que sou, o Senhor fez maravilhas por mim, em mim e por meio de mim. E acreditar que Deus nos ama com carinho, mesmo, ou sobretudo, quando nos derruba do cavalo, como fez com Saulo de Tarso.
   
Muitas vezes, a raiz do ressentimento está na comparação. A sociedade moderna é profundamente marcada pela competição e pela concorrência. Eu tenho obrigação de ser melhor do que os outros. Tenho que superar. Essa obsessão sufoca todo sentimento de solidariedade, de partilha e de abertura para o outro. E essa comparação doentia pode nos levar à inveja e ao ciúme, que nos fecham a uma relação sadia e enriquecedora com o outro. A inveja seria uma espécie de “admiração raivosa”, que impede a pessoa de se alegrar com o dom do outro, e não deixa perceber a riqueza da diferença e da pluralidade. Onde entra a competição, a inveja é impossível viver a comunhão e a fraternidade. Aliás, não precisamos nos preocupar tanto com o que devemos fazer, mas os ocupar com o que devemos ser. Se o que somos é bom, isso fala por si.
   
Os textos bíblicos deste tempo litúrgico; a proposta do jejum, da oração, da caridade e fraternidade; os apelos à conversão, tudo isso pode nos ajudar a construir melhor nossa identidade de pessoa e de cristãos, bem como a nossa missão de estar no mundo para viver em comunhão e fazer o bem.

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