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“Quem sabe faz a hora...”

Pe. José Antônio de Oliveira

      Nos tempos da ditadura militar, quando a liberdade foi duramente cerceada, muitas lideranças exiladas ou presas e torturadas, não deixaram de surgir vozes proféticas em favor da vida e da dignidade.
      Um dos poucos espaços onde essa voz podia ecoar era a música. E foi então que surgiu uma canção, até hoje repetida pelas praças em manifestações populares e movimentos de luta pela vida. Geraldo Vandré conseguiu participar com ela de um festival e gravá-la, embora tenha sido logo censurada e proibida. Mesmo assim, por todos os cantos do Brasil pode-se ouvir: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer!”.
      Aí está uma grande verdade. Esperar que as coisas aconteçam, além de ser sintoma de comodismo, preguiça, ou indiferença, é um grande risco. Quem quer conseguir de fato alguma coisa precisa buscar, construir.
      Em se tratando da construção do Reino de Deus, cujas características mais importantes são a justiça, o direito, o perdão, a libertação de todo mal, o caminho não é diferente. Quem acredita nele e por ele quer lutar não pode ficar parado, de braços cruzados.
      É o que nos diz a liturgia da festa da Ascensão, celebrada neste domingo. Jesus deve voltar ao Pai, promete permanecer com seus discípulos “todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20), mas sabe que precisará de um corpo que expresse sua presença e torne possível a ação salvadora. Pessoas que espalhem as sementes que deseja lançar nos corações. Esse corpo, diz Paulo, é a Igreja, são os discípulos fiéis. “Vocês serão as minhas testemunhas... até os confins da terra” (At 2,8). “Vão e façam discípulos meus todos os povos” (Mt 28,19).
      Mas a reação dos discípulos foi de susto, de medo, de incerteza. Sua preocupação era outra: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” (At 1,6). Queriam saber a hora em que Deus ia se manifestar. A resposta de Jesus é clara: “Não cabe a vocês saber os tempos e os momentos de Deus” (v. 8). Mas vocês “receberão o poder do Espírito Santo”, que lhes dará força na missão de fazer o tempo acontecer, de tornar o Reino uma realidade.
      E Jesus parte de volta ao Pai. Uma nuvem o encobre. A nuvem do mistério, da presença de Deus. Mas também a nuvem da incerteza, da insegurança, do medo. E, enquanto os discípulos ficam lá, olhando para as nuvens, dois mensageiros de Deus lhes aparecem para dizer: “Homens, por que ficam aí parados, olhando para o céu?” (v. 11). Jesus está no céu, mas vocês estão na terra. É preciso olhar para cima, buscar as coisas do alto, sonhar, mas sem tirar os pés do chão da realidade. É aqui que está a missão.
      Ficar parado, olhando para o céu, pouco vai resolver. Há todo um trabalho a ser feito, um caminho a percorrer, uma missão a cumprir. Não basta querer conhecer a hora de Deus. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Não basta olhar para o céu. É preciso colocar os pés no chão; lembrar que somos o corpo de Cristo, e só por meio dele Jesus poderá chegar aos irmãos para lhes falar, tocar, curar, abraçar, amar e salvar.
      Não é por acaso que, neste mesmo domingo, é celebrado o Dia Mundial das Comunicações. É preciso espalhar a Boa-nova de Reino. Levar a todos os cantos o projeto de Jesus. Anunciá-lo, testemunhá-lo; ser, como diz Paulo, “uma carta escrita de Cristo para os outros” (2Cor 3,3).

Aproveito este espaço para trazer a você que é mãe um abraço cheio de ternura e gratidão, rogando a Deus que derrame sobre você suas bênçãos copiosas.