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As aparências enganam

Pe. José Antonio de Oliveira

       Se chegar à sua casa uma pessoa simples, um andarilho, e se chegar uma outra considerada importante pela sociedade, um “doutor”, um político conceituado, um artista famoso, será que o tratamento será igual? Sua reação será diferente?
       Diante de um vicentino, que se dedica a ajudar aos pobres, de uma pessoa que atua em movimentos de defesa da vida, você demonstra mais respeito e consideração do que diante de um jogador famoso, ou de um grande empresário? De maneira geral, quais são as pessoas diante das quais nos inclinamos: as que mais servem ou as que mais aparecem?
       Durante a celebração festiva de N. Sra. Aparecida, no dia 12 de outubro, na missa transmitida pela televisão, os devotos eram convidados a contribuir como sócios, com doações para as obras da basílica e para a evangelização. Quando chegou o candidato à presidência do Brasil, Geraldo Alckmin, a reação foi diferente.
       O animador da celebração deu boas-vindas e agradeceu por sua presença. Alguém comentou: “Engraçado... para o povo que vem de longe, com tanto sacrifício, até sem poder, pedido de ajuda. Para uma autoridade que está em campanha, que veio de tão perto, com tanta facilidade, agradecimento. Por quê!!!”
Pois é, essa atitude revela a nossa prática, nossa mentalidade. Claro que já melhoramos muito. Não agimos como no passado. Ainda me lembro das igrejas que tinham bancos com o nome dos coronéis ou das famílias ricas que faziam doações e ajudavam nas construções dos templos. Podiam chegar atrasados ou nem comparecer, mas seu lugar estava reservado. E os pobres que se virassem.
       Mas ainda se vê, sobretudo nas festas e comemorações, chamar autoridades e pessoas influentes para ocupar lugar de honra. Mesmo que não tenham o costume de participar da Igreja, que sejam exploradores ou corruptos, se forem possíveis “padrinhos” ou “benfeitores”, são tratados com deferência, ou até bajulados. Graças a Deus, isso já se tornou exceção entre nós. Mesmo assim, temos ainda muito a mudar.
       O evangelho da missa do 32º domingo do tempo comum, celebrado este ano no dia 12 de novembro, traz o episódio da viúva pobre (Mc 12,38-44). Jesus repara como as pessoas passam pelo cofre das esmolas no Templo e vão depositando sua oferta. Marcos comenta que alguns deixavam ali grandes quantias. Mas o que chama a atenção de Jesus é o gesto de uma viúva que ali deposita “duas moedinhas que não valiam quase nada”. E Jesus observa: “Esta pobre viúva deu mais que todos os outros”, pois eles ofereceram do que tinham de sobra. Será que temos a mesma sensibilidade de Jesus?
       Repetimos sempre aquele ditado: “As aparências enganam”. Mas nem sempre demonstramos ter consciência disso. Julgamos muito pela aparência. Valorizamos pouco as pessoas mais simples. Não é tão raro, ao final de uma festa religiosa, por exemplo, agradecermos publicamente às pessoas que fizeram alguma doação ou que apareceram mais, enquanto nos esquecemos daquelas que participaram assiduamente das celebrações, que varreram e limparam a igreja, que deram sua pequena oferta com sacrifício, que se colocam efetivamente como membros vivos do Corpo de Cristo.
       E isso não se refere somente a pessoas. Nem sempre valorizamos os pequenos gestos, às vezes tão significativos: um olhar, um sorriso, o aperto de mão, o elogio, um favor, uma delicadeza. No intuito de alcançar grandes objetivos, nem sempre percebemos e celebramos os pequenos avanços que conquistamos. Temos dificuldade para perceber que, por maior que seja a construção, ela é feita de pequenas peças; que uma grande caminhada se faz de pequenos passos; que “o maior no Reino de Deus” e na ótica de Jesus é aquele que serve mais.



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