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Palavras demais, atitudes de menos

Pe. José Antonio de Oliveira

       Quero aproveitar este espaço para refletir um pouco sobre algumas questões que me inquietam no que diz respeito ao pecado e ao perdão. Ao longo da vida, nos momentos de celebração, na orientação espiritual, na prática cristã, sinto grande dificuldade em lidar com a concepção de pecado que nos foi (a ainda é) passada.
       Um exemplo: entendo que a celebração eucarística é uma celebração pascal. Se Páscoa é ressurreição, vida nova, deve ser marcada pela alegria, pela festa; deve ser um momento prazeroso. Imagine uma família reunida para celebrar a vitória sobre o pecado e a morte, a libertação plena, a comunhão com Deus e com os irmãos, a presença amorosa de Deus que nos fala e nos alimenta, a nossa gratidão e o compromisso da fé. Como deve ser bonita e alegre essa reunião! Como cantamos no Ofício Divino das Comunidades: “Oi, que prazer, que alegria, o nosso encontro de irmãos!” (Sl 133)
       Porém, quando vou celebrar a Eucaristia sou obrigado a pensar o tempo todo no pecado. É como se não tivesse o direito de me alegrar sem sentimento de culpa. O pecado e a culpa me acompanham durante toda a celebração. Veja bem:
Logo após a saudação inicial, vem o exame de consciência e o ato penitencial: “por minha culpa, minha tão grande culpa”. Até aí, tudo bem. Quando chegamos para uma festa de família, se as relações com alguém não estão boas a gente procura logo de início “quebrar o gelo”, pedir perdão ou desculpas para criar o clima de fraternidade, para não prejudicar a festa. Quando vou entrar numa casa para um banquete, se os pés estão sujos eu os passo no tapete para deixar ali a sujeira. Depois é só saborear o banquete.
       Mas na celebração as coisas são diferentes. Após o ato penitencial vem o hino de louvor. É hora de bendizer a Deus. Lembra o nascimento de Jesus e sua Páscoa. Um hino bonito. Mas, lá no meio, tenho que lembrar que sou pecador: “Vós que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós. Vós que tirais o pecado...”
       Chega a liturgia da Palavra. “Como Pai ao redor de sua mesa, revelando seus planos de Amor”, Deus nos fala. No Evangelho é o próprio Jesus se revelando. A Palavra do Pai que chega a nós. Mas o Missal diz que, “terminado o Evangelho, o diácono ou sacerdote diz: ‘pelas palavras do santo Evangelho sejam perdoados os nossos pecados’”. Ora, o Evangelho não é para perdoar pecados, mas para anunciar a Boa Nova do Reino! E quem perdoa não são “as palavras”, mas é a Palavra, o próprio Cristo. Além disso, se acredito no perdão de Deus, já fui perdoado lá no ato penitencial; não preciso mais pedir perdão. E, se não acredito, para quê pedir de novo?!
       Após a homilia, professamos a fé. Vou dizer que “professo um só batismo para remissão dos pecados”. Será que é esta a finalidade do batismo: perdoar os pecados? Não será muito mais me tornar membro do Corpo de Cristo, participante da sua vida e salvação?
       Em seguida, vem a preparação da mesa para a Eucaristia e a apresentação das oferendas. Momento bonito de agradecer pelos dons e oferecer nossa vida, nosso coração, os dons a serem partilhados. Mas tenho que lavar as mãos e dizer: “lavai-me, Senhor, de minhas faltas e purificai-me de meus pecados”. Isso mesmo. Os pedidos feitos antes não valeram. Ainda não fui perdoado.
       E tem muito mais. Vou ainda pedir perdão no Pai nosso e orações seguintes: “Livrai-nos de todos os males... sejamos livres do pecado... não olheis os nossos pecados... Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo...” Até chegar o momento da Ceia. Agora sim, posso me sentar à mesa com Jesus e com os irmãos! Não sem antes dizer: “Senhor, eu não sou digno...”
       Poderia falar também sobre o sacramento da Reconciliação. Muitas vezes celebrado às pressas, de maneira mecânica. Quantas confissões feitas por devoção, como parte de novenas, sem a mínima consciência da riqueza desse sacramento de misericórdia e conversão! Confissões semanais ou quinzenais, para cumprir preceito, que nada mudam no comportamento, que não produzem transformação interior. Rezamos belos atos de contrição que nada têm a ver com o sentimento e o propósito que estão no coração. Sem querer julgar, sinto que muitas vezes o nosso excesso de palavras não passa de uma forma de compensar nossa escassez de atitudes. É mais fácil pedir perdão toda hora do que mudar o comportamento e se converter.
       Se olharmos a parábola do Pai misericordioso (Lc 15), veremos que, para o pai, o que importa não é o discurso do filho, mas o gesto de voltar à convivência, à obediência, à comunhão com a família. Ter a coragem de mudar e estar disposto a ficar na casa, sinal da comunidade.

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