Deus
se manifesta em nossas buscas
Pe.
José Antonio de Oliveira
A
Igreja, de maneira muito sábia, nos proporciona tempos
fortes de celebração, intercalados com o chamado
Tempo Comum, no qual podemos ruminar toda a riqueza de que nos
alimentamos nos tempos especiais.
Para ruminar, é preciso
voltar ao que foi ingerido. O ciclo do Natal se encerra com as
festas da Epifania e do Batismo do Senhor. Convido você
a refletir um pouco sobre a Manifestação do Senhor,
celebrada no dia 8 de janeiro. Essa festa carrega em si uma imensa
riqueza simbólica e evangelizadora. Alarga os horizontes
e complementa o mistério do Natal. Coroa, de certa forma,
o mistério da encarnação e do nascimento
de Jesus, porque traz a certeza de que a salvação
não se limita a um povo, mas se estende a todas as culturas
e nações.
A carta de Paulo aos Efésios,
lida na celebração eucarística, traduz bem
essa verdade revolucionária, esse mistério que muitos
cristãos ainda não conseguiram compreender: “os
pagãos são admitidos à mesma herança,
são membros do mesmo corpo, são associados à
mesma promessa...” (Ef 3,6). Deus não faz distinção
de pessoas e não se deixa aprisionar, como querem muitos.
Na verdade, muitas religiões se transformam, como diz Rubem
Alves, em verdadeiras “gaiolas” que criamos na ilusão de
nos apossarmos de Deus e do seu Espírito. Julgamo-nos no
direito de controlar a graça e o amor de Deus e, até
mesmo, a salvação. Quem Ele pode e quem não
pode salvar.
Uma outra lição
que aprendemos com a Epifania é que Deus se manifesta em
nossas buscas. Não só dos cristãos, mas de
todos aqueles que buscam o bem e a justiça. Os magos representam
toda pessoa que anseia, que sonha, que busca, que acredita no
novo. Toda pessoa que permanece atenta aos sinais. E que acredita
nesses sinais.
Quem assim age terá
sempre a sua estrela. A luz que o guia, orienta, convida, põe
a caminho. Tal pessoa não se prende ao que está
pronto, ao já conquistado, não se acomoda na mediocridade,
mas luta por algo melhor. E é essa motivação,
essa mística, que aponta a direção, faz superar
os obstáculos, reaviva a esperança, afasta o cansaço.
Como é importante descobrir a nossa estrela!
Mas os magos nos ensinam também
que nunca vamos sós. Quem deseja alcançar um ideal
precisa caminhar junto. Quem caminha necessita dos outros. Sozinhos
nos perdemos no caminho.
Os magos procuravam uma criança,
um Menino que encarnava o novo projeto para a sociedade; projeto
de justiça, fraternidade e paz. Mas tinham aprendido que
a salvação vinha dos grandes centros, dos poderosos,
dependia do poder. Foram parar em Jerusalém. Mais precisamente
em Herodes.
Tiveram que reaprender a lição.
A salvação vem da periferia, dos pequenos, dos fracos,
do povo. O poder está associado à morte. Os grandes
sempre querem abortar o novo, sufocar a esperança, calar
a voz do povo, sugar a vida, explorar. Sua arma é a mentira.
Sua motivação é a ambição.
Não têm escrúpulos. Querem colocar as pessoas
simples a serviço de seus projetos iníquos. Usam
da boa fé dos pobres para satisfazer seus interesses mesquinhos.
Interessante que, quando entram
em Jerusalém, a estrela desaparece. No Brasil, quando Lula
foi eleito presidente, muitos associaram a estrela do Partido
dos Trabalhadores à estrela de Belém, que poderia
conduzir o Brasil a um novo projeto político, mais justo,
voltado para os pequenos. Mas vimos que muitos dos que representavam
o sonho também se deixaram embriagar pelo poder e pelo
dinheiro. Contudo, o projeto não é de alguns, é
de um povo. Os desvios e traições de alguns não
matam o sonho. O projeto é muito maior que as pessoas.
E ele está vivo; tem história; tem futuro. Porque
não está nas mãos de um grupo, mas no coração
de um povo que anseia por justiça, ética, vida digna
para todos.
Os magos não foram
de mãos vazias. Levaram seus presentes, apresentaram seus
dons. Cada um de nós tem algo a oferecer, e deve oferecer
algo para a construção do novo. Finalmente, foram
avisados em sonho para não voltarem a Jerusalém,
a Herodes. É preciso estar atentos e acreditar nos sonhos.
Ninguém vive de sonhos, mas sem sonhar é impossível
viver e conquistar algo novo.
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