Coisas
que alegram... Coisas que entristicem
Pe.
José Antonio de Oliveira
Uma das experiências
mais bonitas que os cristãos fazem é a oferta do
seu dízimo. A consciência de que Deus é o
senhor de tudo, de que sou apenas um administrador das coisas
que Ele colocou à minha disposição, me faz
DEVOLVER a Ele, por meio da comunidade de fé, aquilo que
não me pertence. Não como um peso, uma obrigação,
mas como gesto de gratidão, de reconhecimento, de compromisso
com a construção do Reino e a promoção
da vida.
É muito bom perceber
as inúmeras manifestações do carinho de Deus
para conosco: a vida, a família, os amigos, o alimento
de cada dia, o ar que respiramos, a capacidade de trabalhar, a
inteligência, a saúde, a luz do dia, além
das pessoas que Ele coloca em nossa vida para nos dar a oportunidade
de fazer a experiência concreta do amor.
Como é interessante
ver a natureza tão pródiga! Coloco um grão
de milho na terra e ela me devolve centenas de grãos, que
alimentam e servem de semente. E assim acontece com cada grão,
cada fruta, cada muda de planta. Assim acontece com os animais,
que se reproduzem e dão sustento.
Em tudo isso tem, é
claro, um pouco de nós, do nosso trabalho. Mas a parte
mais importante vem de Deus. E o dízimo é uma das
maneiras bonitas que tenho para dizer a Deus: Muito obrigado!
Sou muito grato por tudo o que recebo a cada dia e a cada instante.
Sou feliz por poder partilhar um pouco do que tenho e do que sou
com meus irmãos, sobretudo os mais necessitados. Sinto-me
orgulhoso por fazer parte da Igreja de Jesus Cristo e colaborar
em sua missão, por participar da construção
de um mundo justo e solidário, por tornar nossa comunidade
mais fraterna.
Como o dízimo é
educativo! Como é profundamente evangelizador! Como foi
providencial a opção que a CNBB fez pelo dízimo!
Melhor ainda foi a nossa Arquidiocese abraçar pra valer
essa experiência. Não conseguimos ainda atingir plenamente
os objetivos, nossa meta, mas estamos a caminho, e os resultados
têm sido muito positivos. Nada melhor que celebrar os sacramentos,
abençoar, atender as pessoas sem ter que cobrar por isso,
sem colocar o dinheiro na frente. Como é bom expressar,
pelo menos em parte, a gratuidade do amor e da fé!
Essa empreitada merece todo
o nosso empenho. Leigos e leigas, padres e agentes, temos todos
uma grande responsabilidade. Não é fácil
mudar. Nossa sociedade é profundamente capitalista e consumista.
A tradição da Igreja está muito mais ligada
a taxas, esmolas, campanhas, leilões, rifas, listas, bingos,
“padrinhos” e paraninfos. E um costume de séculos não
se muda de uma hora para outra. É preciso coragem, ousadia,
testemunho de fé para apostar no gesto de compromisso e
partilha.
Pena que algumas paróquias
(ou párocos?) ainda teimem em se escorar nas listas e nos
padrinhos. É duro ver barraquinhas da Igreja vendendo bebidas
alcoólicas para conseguir dinheiro. É triste saber
que a maioria dos nossos agentes de pastoral, a começar
pelos padres, não assumiu ainda o compromisso do dízimo.
Machuca o coração
ligar a TV e ter que engolir as redes de inspiração
católica quase que implorando dinheiro aos espectadores,
muitas vezes apelando para todo e qualquer meio, seja vendendo
objetos sagrados, viagens, orações, seja fazendo
campanhas e pregações. É duro ver a transmissão
de uma missa e, na hora do “ofertório”, ouvir o padre pedir
dinheiro, ver o número da conta bancária aparecer,
bem grande, na tela da TV.
Quando há milhões
de pessoas passando fome no Brasil, tanta gente sem casa, sem
as mínimas condições de vida, comunidades
que não têm condições de construir
um simples espaço de celebração e encontro,
é difícil ouvir campanhas para colocar um “telhado
azul” na “Casa da Mãe”, ou para se construir templos de
mármore. Quando tantos se esforçam para conscientizar
sobre a beleza do dízimo, outros sufocam o trabalho com
um verdadeiro “assalto religioso” aos bolsos dos mais simples;
em nome da fé.
É difícil manter
uma TV no ar? Claro que sim. Sabemos disso. Mas, se o objetivo
é mesmo evangelizar, será que precisamos ter cinco
canais ou redes “católicas” no Brasil? Não bastaria
uma, com assessoria da CNBB, com o rosto do nosso povo e o coração
das primeiras comunidades? Ou o interesse de cada grupo fala mais
alto? Não custa aos católicos contribuírem
para manter no ar uma emissora que assuma realmente a tarefa de
evangelizar e promover a vida. Mas por que ter que sustentar tantas
ao mesmo tempo, cada uma querendo “vender o seu peixe” e defender
seu ponto de vista?
A evangelização
merece nossa contribuição, mas não o capricho
de grupos e movimentos que pregam mais figuras “pop star” do que
Jesus Cristo. A Mãe merece uma casa bonita? Claro que sim.
Mas ela não precisa; e muitos de seus filhos precisam de
pelo menos uma coberta para se abrigar.
A melhor maneira de agradar a Mãe é acolher o seu
pedido: “Façam tudo o que Ele disser”.
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