Esperar
é construir
Pe.
José Antonio de Oliveira
Na vida, transitamos entre
“o que já” e “o que ainda não”; o que já
conquistamos e o que sonhamos; a experiência adquirida e
a esperança que nos anima. Tudo isso ilumina e enriquece
o que de fato existe: o nosso presente.
Embora não valha a
pena viver do passado ou se apegar ao que já se foi, o
caminho feito nos ajuda a entender e valorizar o presente, além
de ser um incentivo a continuar. Mesmo sabendo que não
vivemos de sonhos, o ideal e a esperança nos puxam para
a frente, nos dão força e coragem para superar os
obstáculos e limites.
O Advento, que estamos vivendo,
nos ajuda a compreender e celebrar toda essa realidade. É
um convite a fazer memória da vinda histórica de
Jesus, quando Deus se fez um de nós e armou a sua tenda
em nosso meio. Olhamos para trás com gratidão e
reconhecimento. Ao mesmo tempo, nos colocamos numa perspectiva
escatológica, alimentando e construindo a esperança
da vinda gloriosa de Jesus, quando a justiça enfim será
plena, e a vida acontecerá com toda a abundância.
Porém, nossa atenção
se concentra no hoje da nossa história. É a vinda
de Jesus agora que deve ser preparada, experimentada, construída,
celebrada. De que maneira vivemos essa vinda? O que ela provoca
em cada um de nós, na família, na comunidade?
Um primeiro convite é
para estar atentos aos sinais de Deus. Eles são muitos
e diversificados. Muitas vezes escondidos. Mas Deus está
aí e nos fala, se comunica conosco, vem ao nosso encontro.
Que sinais de Deus percebemos? O que estamos fazendo para percebê-los
e valorizá-los?
Por outro lado, embora os
sinais sejam um caminho mais rápido na comunicação
do mistério, não podemos parar neles. Eles nos transportam
para a realidade maior.
O tempo do Natal traz esse
grande perigo. Pode acontecer de supervalorizarmos os enfeites,
as luzes, o presépio, o Papai Noel, a coroa, os presentes,
o passado, e não celebrarmos verdadeiramente a encarnação
de Deus em nossa história e sua presença transformadora
em nossa vida.
Um exemplo simples: não
conseguimos curtir o clima bonito da espera, da construção,
da gravidez que deve marcar o advento. Ainda nem entrou dezembro
e já as ruas e lojas estão abarrotadas de luzes
e de cores; o que deveria acontecer mesmo só no dia do
Natal. Passamos o mês inteiro ouvindo aquelas musiquinhas,
que acabam ficando chatas, nos comerciais, nos carros de som,
nas reuniões. Quando chega o dia do Natal, nem queremos
mais ouvi-las.
Mais ainda: ficamos discutindo
qual deve ser a cor das velas da coroa do advento, quando, na
verdade, o sinal é a luz, Jesus que vem para iluminar o
caminho dos que andavam nas trevas. E pode acontecer até
que enchamos de luzes a casa, sem conseguir colocar luz no coração;
que façamos um presépio luxuoso, sem perceber que
Jesus escolhe o que há de mais simples e pobre para visitar
e iluminar.
A cultura do consumo pode
transformar nosso Natal em compras, comida, bebida, agitação,
quando a única coisa que Jesus desejava mesmo era fazer
parte de nossa vida, nos revelar o amor do Pai, e nos convidar
a construir um mundo justo e fraterno.
Tudo o mais não passa
de pretexto da sociedade consumista, que usa o nome de Deus em
vão, que comercializa o sagrado, banaliza o transcendente,
buscando os próprios interesses. E nós, se não
temos um mínimo de senso crítico, embarcamos nessa,
indo em busca de um Natal de comes e bebes, músicas chatas
e abraços sem graça, alegria falsa e sorrisos amarelos.
E aquela festa, que seria para celebrar o encontro com Deus e
com os irmãos, para encher o coração de esperança
e gratidão, para estreitar os laços e prolongar
os abraços, para nos tornar mais solidários e fraternos,
pode acabar numa simples ressaca.
É tempo de gravidez.
Tempo de construção. Momento de espera ativa e alegre.
Deus nos espera em Belém, casa do pão, e nos convida
a caminhar. A libertação está próxima:
preparem os caminhos do Senhor!
<----
Volta a página principal ----->