A
rica experiência do deserto
Pe.
José Antonio de Oliveira
Grande
parte da história do povo de Deus acontece no deserto.
Na bíblia, o deserto significa lugar do encontro com Deus
e da gestação do novo. Foi aí que o povo
conseguiu fazer a travessia da escravidão para a liberdade;
a passagem entre o Faraó que oprimia e o Deus Javé
que liberta; a ponte entre o contentar-se com o pão e a
busca da dignidade.
Foi também no deserto
que o próprio Jesus se preparou para a missão, desarmando
o diabo e superando as tentações. Antes dele, João
Batista já abandonara o mundo e se refugiara no deserto.
Lá recebeu a palavra de Deus, tornou-se “voz que clama
no deserto”, convidando o povo a se preparar para receber o Messias.
Mas, por que será que
a bíblia insiste tanto em colocar os grandes momentos do
povo de Deus e as grandes decisões justamente no deserto?
O que ele esconde e revela de tão importante? Que ligação
existe entre o deserto, a quaresma, a Páscoa?
Ao ler a bíblia, percebemos
que é no deserto que Deus fala ao coração
do seu povo: “Eis que vou, eu mesmo, seduzi-la, conduzi-la ao
deserto, e falar-lhe ao coração” (Os 2,16). Comparando
seu povo à esposa, Deus diz que no deserto lhe falará
ao coração e o seduzirá. Ali irá guiá-lo
por uma coluna de nuvem; iluminar a sua noite com uma coluna de
fogo (Ex 13,21); saciar a sua sede com a água do rochedo
(Ex 17,6); oferecer como alimento o maná de cada dia (Ex
16,13ss); revelar as suas Leis e fazer com ele uma Aliança
de amor.
O Frei Prudente Nery faz uma
bela reflexão onde lembra que, no deserto, Deus permitiu
que seu povo experimentasse a sede, para que pudesse perceber
a preciosidade da água; que sentisse fome, para aprender
o valor do pão e da partilha; que sofresse a solidão,
para que compreendesse a importância e o valor dos irmãos.
No deserto se viram perdidos, para reconhecer que precisavam de
Deus; sentiram saudade do passado, para que aprendessem a valorizar
a esperança; foram feridos pelo pecado, para que descobrissem
a beleza do perdão.
O deserto nos ensina tudo
isso. Só aprendemos a dar valor, quando perdemos algo ou
não podemos ter. Somente passando necessidade, valorizamos
a alegria de possuir. É na aridez do deserto que se descobre
a necessidade de cavar fundo para buscar a água que dá
vida. É na sua escuridão que se aprende a valorizar
o brilho das estrelas. É na sua solidão e silêncio
que se descobre a necessidade de prosseguir, sem se deixar dominar
pelo desânimo e pelo cansaço: “Levanta-te e come,
porque tens um longo caminho a percorrer” (1Re 19,4-8).
Cada ano, durante a quaresma,
a Igreja nos convida a fazer a experiência do deserto. No
primeiro domingo vimos Jesus no deserto, sendo tentado, superando
as tentações e se preparando para o ministério.
Neste tempo somos convidados a viver mais intensamente a oração,
o jejum, a meditação da Palavra na busca da conversão.
Desafiados a nos privarmos de algum alimento ou de algo que nos
agrada, como forma de solidariedade, proporcionando o mínimo
necessário aos que nada têm. Somos convidados a fazer
a experiência da sede, para sentirmos o valor da água
e ajudarmos a quem não a possui. Olhando para as pedras
do deserto, somos desafiados a superar a dureza de nosso coração.
“Tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos
darei um novo coração de carne” (Ez 36,26).
A experiência do deserto
nos mostra que, enquanto há alguns que esbanjam e vivem
na fartura, há outros que vivem do lixo ou sobrevivem das
migalhas da nossa falsa “caridade”. Enquanto desperdiçamos
a água que jorra em abundância em nossas torneiras,
há milhões de “vidas secas”, uma multidão
sedenta de água e dignidade. O maná do deserto,
que não podia ser guardado, pois estragava de um dia para
outro, nos ensina a buscar o “pão de cada dia”, pois se
alguém acumula o pão para anos e anos, faltará
certamente o pão de hoje e até o de ontem para milhões
de irmãos. E isso dói no coração do
Pai.
Deus nos convida ao deserto
e quer falar ao nosso coração. É esse o lugar
privilegiado do encontro com o Senhor da vida e com a vida dos
irmãos. Tempo da gestação do novo. Caminho
e garantia da Páscoa da libertação.
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