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Por uma vida mais simples

Pe. José Antonio de Oliveira

      Plínio Arruda Sampaio, político e advogado, com 77 anos de idade e muitos sonhos no coração, tem uma proposta interessante para o Brasil. Seria o projeto de uma sociedade simples, sem a preocupação de ser do primeiro mundo, de ocupar os primeiros lugares na economia, mas onde todos tenham acesso a uma vida digna. O que adianta ter uma tecnologia de ponta, ocupar os primeiros lugares em exportação, proporcionar a uma minoria todas as regalias do primeiro mundo, quando uma grande massa não consegue o mínimo para sobreviver?! Muitos acham que isso não passa de uma fantasia, mas é uma proposta profundamente evangélica.
      Agora, o Documento de Aparecida, em seu número 100, letra “f”, vem tocar justamente nesse assunto. O texto diz assim: “Reconhecemos que alguns católicos têm se afastado do Evangelho, que requer um estilo de vida mais simples, austero e solidário...”. E apresenta algumas das razões dessa postura: “A avidez do mercado descontrola o desejo de crianças, jovens e adultos. A publicidade conduz ilusoriamente a mundos distantes e maravilhosos, onde todo desejo pode ser satisfeito pelos produtos que têm um caráter eficaz, efêmero e até messiânico” (n. 50).
     É uma realidade. A grande força de convencimento e persuasão dos meios de comunicação, da propaganda tem despertado em muitos um consumismo exagerado e nada cristão. Esse consumismo descontrolado, associado à competição, coloca em risco os sentimentos cristãos da solidariedade, da partilha, da fraternidade. E aquelas pessoas que, por serem seguidoras de Jesus Cristo, deveriam dar testemunho de simplicidade, despojamento, solidariedade, deixam-se levar pela onda da sociedade capitalista, que coloca o lucro acima da vida.
      Como nada de material consegue preencher a sede do coração humano, a pessoa entra numa busca desenfreada por ter mais, sem se dar conta que a felicidade anda por outros caminhos. Renato Russo, grande poeta da música popular, em sua canção “Índios”, lembra que “quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante”. É a sede insaciável que sufoca a capacidade de pensar no outro e provoca uma radical inversão de valores.
      Jandira Soares, numa reflexão sobre os perigos do consumismo, pergunta: “Será que precisamos "mesmo" ter não sei quantos pares de tênis, de sandálias, de sapatos de todas as cores, com as respectivas bolsas para combinar? Será que precisamos "mesmo" ter tantas peças no guarda-roupas? Comprar tantos produtos de beleza? Será que a beleza não vem de dentro para fora? Precisamos realmente comer tanto sanduíche e tomar tanto refrigerante? Isto é saudável? Precisamos "mesmo" da muleta do cigarro, da bebida, até da droga para nos sentirmos "gente"? Isso realmente nos faz tão felizes assim?
      Claro que não. Aliás, “ficar sem algumas coisas que você quer é parte indispensável da felicidade” (Bertrand Russel). E a bíblia nos revela que “há mais alegria em dar do que em receber” (At 20,35). Não faz o menor sentido acumular, ajuntar, esbanjar, usar mal, quando há tantos que passam fome, não têm onde morar ou o que vestir. Como se dizer cristã a pessoa que, ofuscada pelo consumismo e pela competição, investe tudo em si mesma, fechando os olhos à necessidade e à dor de tantos filhos de Deus?
      Mas ninguém está imune a essa tentação. Os apelos são inúmeros e muito fortes. A propaganda é capaz de, a todo instante, encher os nossos olhos de coisas que não temos e achamos que precisamos ter para ser felizes. Até mesmo em nossas igrejas. Quantas vezes deixamos de optar por construções mais sóbrias, para investir alto em templos luxuosos! As vestes, que podem ser bonitas e dignas, ainda que simples, são substituídas pela suntuosidade.
      E todos sabemos que o culto agradável a Deus é aquele que vem do coração e é marcado pela simplicidade. A experiência mostra, a cada momento, que a felicidade não se compra, não está nas coisas que possuímos. Mas pode ser encontrada sobretudo no cuidado de si mesmo e do outro, nas relações saudáveis, no amor dado e recebido, nas boas amizades. Felicidade é poder tocar o outro e ser tocado. É gastar tempo com aquilo que realmente importa: nós mesmos, as pessoas que amamos, a família, o lazer, a oração, os que precisam de nós. Mais simples que imaginamos.

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