Queriam
fazê-lo rei...
Pe.
José Antonio de Oliveira
“Papa
vai custar R$ 2 milhões a fazenda”. Essa é a manchete
do “Gazeta on line”, ao falar da vinda de Bento XVI ao Brasil.
Depois explica: A Fazenda Esperança, em Pedrinhas, a 14
km de Guaratinguetá, segundo informações
do próprio frei Hans, vai gastar R$ 2 milhões em
reformas para receber o papa.
“Mosteiro
passa por reformas para receber o papa!” É a manchete da
tv. E vem a reportagem: imagens e telas restaurados por uma renomada
artista, apartamento remodelado, o piano afinado. E o prior, dom
João Evangelista explica: “Qualquer desejo que Sua Santidade
manifestar nós vamos acatar como uma ordem”.
No
Pacaembu será construído um palco gigantesco. Um
cidadão indignado perguntava: “Qual o benefício
público de um palco de 100m com uma pomba milionária
de acrílico??? Isso é luxo desnecessário.
Um palco de madeira da mesma altura não resolveria o problema?”
Já em Aparecida, está a todo vapor a campanha para
conseguir doações, porque só o palco para
as celebrações ficará em cerca de R$ 900
mil. Há obras por todo lado. Um grande corre-corre para
deixar tudo de acordo.
E
por que estou dizendo tudo isso? Pois é! Sinto que há
uma grande inversão de valores. Há um desvio de
foco. Que imagem estamos passando da nossa Igreja, dos nossos
pastores, de Jesus Cristo. Na verdade, onde está Jesus
Cristo em tudo isso? Onde está o Evangelho? Onde estão
as opções da Igreja?
Essas
interrogações me inquietam e questionam. Ao ver
toda essa movimentação e preocupação
com as coisas externas, com a figura do papa, vem à lembrança
uma passagem do evangelho narrado por João: “Quando Jesus
percebeu que queriam fazê-lo rei, se retirou sozinho para
a montanha” (Jo 6,15). Sei que ele foi aclamado ao entrar em Jerusalém,
mas entrou na cidade para expulsar os que exploravam o Templo
e os pobres em nome da religião, para lavar os pés
dos discípulos, oferecer-se como sacrifício e entregar
a vida pela humanidade. Interrogado por Pilatos se era rei, afirmou:
“Meu reino não é deste mundo”.
E
então eu volto lá naquele aparato preparado para
receber o papa. Será que ele quer isso? Duvido! Como Pastor
da Igreja, servo dos servos, continuador de Jesus Cristo, sucessor
de Pedro, deve se sentir incomodado. Qualquer pessoa de bom senso,
que tenha princípios cristãos, se sentiria assim.
Não é o jeito de Jesus Cristo.
Mas,
então, por que isso acontece? Não se justifica,
mas há explicações. Em primeiro lugar, o
papa deve ser recebido em outra nação como chefe
do estado. Infelizmente ainda é assim. Além disso,
a mídia se encarrega de incentivar o espetáculo.
Realça o que dá audiência. Mais ainda; grande
parte dos católicos traz ainda na cabeça a imagem
da Igreja triunfalista, formada por bispos que são verdadeiros
príncipes, que moram em palácios, usam báculo
para lembrar o cetro dos reis, mitras que substituem a coroa real,
vestes finas... E, cá entre nós, há muitos
que gostam dessa idéia. E até a sustentam.
Na
verdade, se já existe em nós uma tendência
ao aburguesamento, o povo a alimenta. Para os bispos e padres,
tem que ser sempre o melhor: a melhor roupa, a melhor comida,
a melhor casa. E a gente acaba embarcando nessa, se distanciando
do ideal evangélico de simplicidade, desapego, sobriedade,
doação. Somos ordenados para servir o povo e acabamos
tendo um povo a nosso serviço.
Mas...
voltando ao papa, você pode argumentar: toda essa mobilização
é por causa da Conferência Latino-americana! E eu
pergunto: Que conferência?! Pois é, aí está
outro grande problema. Tenho perguntado nos encontros com o povo,
com agentes da Igreja e até com catequistas: O que vai
acontecer de importante no Brasil em maio? A resposta está
na ponta da língua: A visita do papa. E quando eu pergunto:
E a Conferência? Quase sempre ouço outra pergunta:
Conferência? Que Conferência?! Isso mesmo. O encontro
que irá refletir sobre a realidade latino-americana e a
contribuição que a Igreja pode oferecer para que
todos tenham vida, à luz da proposta de Jesus Cristo, fica
em último plano, ou nem é lembrado. Como lembrava
dom Demétrio, não se pode dizer que a Conferência
do Celam é importante porque o papa vem fazer a abertura;
o papa vem fazer a abertura porque ela é muito importante.
A prioridade é a Conferência, e não a presença
do papa, por mais que ela seja importante para os católicos.
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