O
Papa é contra a Teologia da libertação?
Pe.
José Antonio de Oliveira
Com a vinda de Bento XVI ao Brasil e diante da crítica
ferrenha do Prof. Felipe Aquino aos bispos que abraçaram
a Teologia da Libertação, entre eles D. Luciano,
vem mais uma vez à tona essa discussão. O povo,
em geral, fica meio perdido no meio dessas controvérsias.
As opiniões são muito diferentes e contraditórias.
Em nome da Bíblia e dos documentos da Igreja, uns condenam
e outros enaltecem a Teologia da Libertação. Quem
está com a razão? Vale a pena refletir um pouco.
Gostaria de oferecer, também, alguns elementos que ajudem
a reflexão.
A
teologia é o estudo de Deus e do modo de entender a relação
entre o ser humano e a divindade. Ela pode se dar de muitas maneiras
e a partir de vários pontos de vista. Hoje em dia, por
exemplo, está em alta a chamada “teologia da prosperidade”,
que apresenta Deus como aquele que pode resolver todos os nossos
problemas. Quem tem fé, reza e oferece fielmente o seu
dízimo vai progredir na vida. É uma forma de fazer
teologia.
A
Teologia tradicional da Igreja parte mais das verdades, dos dogmas,
dos mandamentos. É preciso conhecer Deus e seu ensinamento,
praticar a fé, participar das missas, confessar, comungar
etc.
A
Teologia da Libertação nasce na América Latina
propondo uma nova reflexão sobre Deus a partir da realidade
latino-americana, cuja população é acentuadamente
pobre e excluída, vítima dos sistemas autoritários
que sempre comandaram o continente. Defende a vivência da
fé de maneira mais encarnada na realidade. Ensina um Deus
mais próximo, um Jesus mais humano. Deseja que a religião
se preocupe também com o corpo, não só com
a alma; tenha em vista também a vida terrena, não
só a vida eterna no céu. Propõe a libertação
como superação, a partir da fé e da bíblia,
de toda forma de exclusão e de escravidão. Defende
uma religião que não seja “ópio do povo”,
mas fonte de libertação e de esperança.
Como
temos uma cultura de dependência, e tudo o que aprendemos
vem dos intelectuais, das autoridades, dos “mestres”, a Teologia
da Libertação combate toda forma de dependência
e procura ver a realidade a partir da ótica do oprimido,
dos pobres e pequenos. Em vez de ensinar uma doutrina, para que
depois a pessoa veja como aplicá-la na realidade, propõe
o caminho inverso. Primeiramente se procura conhecer a fundo a
realidade, as causas e conseqüências do que existe,
para depois comparar essa realidade com o plano de Deus. A partir
daí, procura-se uma forma de agir que torne a realidade
mais próxima do projeto de Jesus Cristo. É o conhecido
método VER/JULGAR/AGIR, que pode ser concluído com
o CELEBRAR e o REVER.
Além
disso, por saber que as mudanças na sociedade dependem
da política, da participação consciente,
de projetos, essa Teologia defende também maior participação
dos cristãos em todos os campos da atuação
humana: política, economia, cultura etc.
Contudo,
não existe um modelo único de Teologia da Libertação.
Como há também várias expressões da
Teologia Tradicional. Alguns teólogos podem exagerar para
um lado ou para outro. Há aqueles que se enveredam por
uma linha exageradamente espiritualista, e outros que são
extremamente terrenos. Uns se fixam no Cristo da fé, mais
divino; outros preferem o Jesus histórico, mais humano.
O
Papa, em nome da Igreja, está sempre atento aos exageros
e procura orientar. Por outro lado, a Cúria Romana não
conhece a realidade vivida pelos latino-americano por lhe faltar
a experiência de quem vive no meio dos pobres, compartilhando
seus conflitos, dores, angústias. Essa é uma das
razões de tantas críticas à Teologia da Libertação,
mesmo depois do Papa João Paulo II ter reconhecido que
ela é “oportuna e necessária”.
Mas,
se você não entende e não liga muito para
essas discussões, não se preocupe. Jesus não
quis fazer teologia. Quis apenas revelar que Deus é Pai,
propor o Reino de Justiça, demonstrar compaixão
pelos pecadores e sofredores e se oferecer para que todos tenham
vida. Como diz Fernando Altemeyer, parafraseando Blaise Pascal:
“Todas as teologias não valem um gesto autêntico
de solidariedade com os pequeninos”.
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