Dom
Luciano errou o caminho
Pe.
José Antonio de Oliveira
O
professor Felipe Aquino, escritor e formador católico,
dirigiu recentemente um e-mail a D. Pedro Casaldáliga.
O conteúdo desse e-mail não foi publicado, mas chegou
ao conhecimento de muitos e provocou também grande indignação.
O
texto começa dizendo que D. Pedro “continua incorrigível,
envenenando o povo com a teologia da libertação,
que aniquila a verdadeira fé...” Mais à frente,
o professor chega a ser deselegante e preconceituoso, ao perguntar:
“por que não vai agora descansar na sua Espanha?” E continua:
“Cristo agradeceria a sua volta para lá”.
Sua
atitude de intolerância nasceu de um texto, onde D. Pedro
critica a censura imposta pela Cúria Romana ao teólogo
Jon Sobrino, e pelo fato de Casaldáliga ser defensor da
Teologia da Libertação que, segundo Aquino, “encobre
e aprova na surdina o ateísmo e a ditadura do relativismo
religioso e moral”. Mais ainda: o bispo está jogando o
povo contra o Papa e a Igreja.
Como
se não bastasse, agride também o nome de pastores
consagrados, que dedicaram a vida à defesa dos pobres,
dos direitos humanos, da vida. Uma frase da carta é de
uma infelicidade indescritível: “D. Luciano Mendes, D.
Ivo, D. Hipólito...um a um dos que erraram o caminho, o
Espírito Santo está retirando do palco”. É
inacreditável, mas essa expressão saiu do coração
de uma pessoa que se diz cristã e se apresenta como um
evangelizador e formador da fé.
Ao
ser questionado por várias pessoas indignadas com sua postura,
afirmou que não queria ofender ninguém, mas considera
a Teologia da Libertação “a pior coisa que aconteceu
na Igreja, pois politiza, esvazia e corrompe a fé cristã”.
Criticou a opção pelos pobres. Disse que João
Paulo II “escondeu D. Luciano em Mariana” e dividiu a Arquidiocese
de São Paulo para “sanear a Igreja do mal da Teologia da
Libertação”. Lamenta por esses pastores “não
terem colocado todo o potencial e luta em outra direção”.
E
conclui: “a Renovação Carismática veio devolver
ao povo o sagrado e a Palavra de Deus, e trazer o povo de volta
para a Igreja”. Sem ela, “acho que sucumbiríamos”.
Ao
registrar e tornar público seu gesto, não tenho
a intenção de polemizar. Também não
se trata de revanchismo, por ele ter ofendido a memória
de nosso querido pastor, D. Luciano. Somos conscientes de que
toda pessoa tem o direito de expressar o que pensa. Respeitamos
esse direito. Além disso, somos cristãos e aprendemos
a conviver com o diferente e a perdoar os que nos ferem.
Por
outro lado, nos inquieta saber que essas palavras partiram de
alguém que ocupa espaço num meio de comunicação
de orientação católica, a Canção
Nova e, por meio do rádio, da tv, da internet, chega aos
lares de milhões de brasileiros. Sua postura revela uma
teologia fundamentalista e uma eclesiologia limitada. Reflete
uma perigosa intolerância. Sua fé se fundamenta na
exagerada preocupação com a lei, a doutrina, as
tradições, sem se preocupar com a pessoa. Carrega
ainda aquela visão míope e temerária de que
fora da Igreja católica, fora do Papa não há
salvação. Sua teologia coloca a Igreja acima do
Reino.
Não
há como discutir teologia neste pequeno espaço.
E reconhecemos os limites da Teologia da Libertação,
como de tudo o que é humano. Mas como negar que a fé
cristã, para ser coerente e fiel a Jesus Cristo, tem de
ser profundamente libertadora? O Deus da Aliança é
aquele que vê o sofrimento do povo, ouve seu clamor e “desce”
para libertá-lo (Cf. Ex 3,7ss). Jesus, ao definir sua missão,
lembra que veio para restituir a liberdade (Cf. Lc 4,18). Podemos
ainda recordar as palavras do próprio papa João
Paulo II, em carta ao episcopado brasileiro, no dia 9 de abril
de 1986: “estamos convencidos, nós e os Senhores, de que
a teologia da libertação é não só
oportuna, mas útil e necessária”.
Como
ser cristão sem fazer opção pelos pobres,
pelas vítimas, pelos sofredores?! Como se dizer seguidor
de Jesus Cristo, sem assumir compromisso com a vida em todas as
suas manifestações? Como dizer que D. Hipólito,
perseguido, seqüestrado, torturado por defender os pequenos
e injustiçados errou o caminho? Que D. Paulo Evaristo,
grande defensor dos direitos humanos, usou mal o seu potencial?
Que D. Pedro Casaldáliga, aquele que soube unir tão
bem poesia e profecia, está envenenando o povo? Que D.
Luciano fez mal à Igreja e que o Espírito Santo
o tirou do palco?
Disseminar
essas idéias é um desserviço à Igreja
e, sobretudo, ao Reino. Dizer que a Teologia da Libertação
é a pior coisa, e que a RCC é a salvação
da Igreja é muita presunção. Não se
pode negar o valor da Renovação. Ela tem o seu papel
e seu espaço. Mas não pode ser o único modelo
de Igreja. Onde estão os seus mártires? A Teologia
da Libertação tem a alegria de contar com o testemunho
de inúmeros deles. Creio que a preocupação
da Igreja não pode se restringir a encher os templos, mas
em ser fiel ao Evangelho.
E
digo mais: se é função do Espírito
Santo inspirar o Papa para esconder D. Luciano em Mariana, para
desfazer o trabalho profético da Igreja em São Paulo;
se é função dele retirar de cena pastores
como D. Ivo, D. Hipólito, D. Luciano, para oferecer palco
a pessoas como o prof. Aquino, será que devemos invocá-lo?!
Se
a teologia que a Igreja aprova deve deixar de lado o Javé
libertador, os profetas, o Jesus que morre por enfrentar os poderes
constituídos, acho que errei de teologia. Se a eclesiologia
em vigor é a de uma Igreja que se apresenta apenas como
mestra (ou dona?) da verdade, e não como discípula;
fechada ao diferente, intolerante, incapaz de fazer a opção
preferencial pelos pobres, despolitizada, acho que peguei o barco
errado. Se D. Luciano errou o caminho, ah! como gostaria de também
errar o caminho!!!
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