Que
Igreja somos? Que Igreja queremos ser?
Pe.
José Antonio de Oliveira
Rubem
Alves costuma dizer que as religiões são como gaiolas
para aprisionar o próprio Deus. A partir da concepção
que temos, procuramos enquadrar Deus em nossos conceitos e idéias,
impondo a Ele uma série de limites. Nós definimos
até onde Ele pode ir, quem pode salvar, como deve governar
o mundo, de quem deve cuidar.
As
Igrejas vão na mesma direção. Quase sempre
são porta-vozes de Deus, portadoras da única verdade.
Quem não se encaixa no seu esquema está no caminho
errado. Isso dá o que pensar.
De nossa parte, acreditamos que, de fato, há uma só
Igreja de Jesus Cristo, embora tenha muitas formas de ser e de
se expressar. Sempre santa e pecadora. As denominações
são inúmeras, mas, com exceção de
algumas que nascem, crescem (e como crescem!) e vivem de interesses
escusos, de alguma forma querem ser expressão da Igreja
de Jesus Cristo. Instrumento para a construção do
Reino. Pelo ensinamento de Jesus, parece estar claro que o Reino
é o objetivo maior, não a Igreja.
E
como deve ser a Igreja, para que se coloque efetivamente como
ferramenta da construção do Reino? Cada um tem suas
receitas. A partir da experiência, da leitura, de vários
debates e encontros, quero também apresentar o que creio
ser uma Igreja mais próxima da proposta de Jesus. Se não
é o retrato fiel, há elementos para uma boa reflexão.
O
primeiro ponto é estar conscientes de que nós é
que formamos a Igreja, e somos nós que, impulsionados pelo
Espírito, lhe damos rosto e gestos.
Para
ser fiel à sua origem, a Igreja precisa voltar às
fontes. Ser uma Igreja como a dos primeiros cristãos: Alegre
e festiva, acolhedora e amiga; feita de mulheres e homens, mas
conduzida pelo Espírito; que procure viver a prática
de Jesus na realidade do povo, caminhando com o povo e falando
a sua linguagem.
Uma
Igreja humana e humanizadora, fraterna e sincera, que viva a igualdade
e promova a participação; de pessoas diferentes
e objetivos comuns; que fale de Deus e fale com Deus; que exista
para salvar e não para condenar: mais graça do que
pecado; mais amor que condenação.
Uma
Igreja servidora, que seja boa notícia para os pobres,
sobretudo os doentes, os famintos, os marginalizados; comprometida
com a justiça e com a verdade; verdadeiramente ministerial
e solidária, respeitando os conselhos organizados e vivendo
os conselhos evangélicos; respeitando e promovendo as pessoas,
para que cada uma tenha nome e dignidade.
Uma
Igreja aberta ao novo, que dialogue e anuncie, ouça e respeite,
que partilhe experiências e faça parceria; que se
deixe evangelizar e seja verdadeiramente missionária; que
não queira ser dona da verdade, mas também não
traia a sua identidade.
Deve
ser uma Igreja orante e mística, menos instituição
e mais comunhão; livre para a profecia e pronta para o
martírio; não atrelada aos poderosos, mas clara
em sua opção política; que encare sem medo
as perseguições e os desafios; que supere o paternalismo,
promovendo a reintegração; sinal da ternura e da
gratuidade de Deus.
Uma Igreja não só de católicos, mas de verdadeiras(os)
cristãs(ãos) a serviço do Reino.
Uma
Igreja iluminada pela figura de Maria, fortalecida pelo testemunho
de tantas e tantos mártires, fundada na fecundidade do
Pai, na humanidade do Filho e na unidade do Espírito Santo.
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