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É preciso enxergar além

Pe. José Antonio de Oliveira

      Muitos devem estar acompanhando as notícias sobre o caso de extorsão contra o Pe. Júlio Lancelotti, com todas as conseqüências que o fato vem acarretando. É semelhante ao que aconteceu, não faz muito tempo, com o Rabino Henry Sobel, acusado de furto. Essas coisas sempre mexem com a gente e geram inúmeras reflexões. Uma delas é sobre a facilidade que temos de rotular as pessoas, e a dificuldade de enxergar além.
      Alguns psicólogos, no atendimento, costumam colocar a mão com quatro dedos na frente do próprio rosto e perguntar: - o que você está vendo aqui? Normalmente a pessoa responde: - quatro dedos. Só depois vai perceber que, além dos quatro dedos, tem o rosto da pessoa, seus olhos, sua boca, e tantos detalhes mais. Nossa visão se detém em alguns elementos e não percebe a riqueza do conjunto ou da essência. Como diria Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.
      É o que sinto quando as pessoas e, sobretudo, a mídia tratam desses fatos. Vejamos. Pe. Júlio Lancelotti trabalha na Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo desde sua fundação. E só quem já passou pela experiência sabe o que significa esse trabalho, seus desafios e exigências. Há anos Pe. Júlio, com os membros da Pastoral, atende crianças e adolescentes empobrecidos de favelas, cortiços e da periferia. A Pastoral “foi o primeiro grupo, na cidade de São Paulo, a ter equipe de “educadores de rua”, que buscam desenvolver uma pedagogia de resgate da dignidade das crianças e adolescentes em situação de risco. Trabalha também no acompanhamento de adolescentes, meninos/meninas, de 14 a 18 anos, que cometeram atos infracionais”.
      Todo o seu trabalho “faz parte de um projeto de vida pessoal e social que acredita na pessoa humana, acima de tudo, como imagem e semelhança de Deus, e como cidadãos que devem ter seus direitos respeitados, assumindo assim seus deveres para com a coletividade”. Sua marca é a convivência e o afeto pelos mais fracos e excluídos. Dentro dessa perspectiva, fundou em 1991 a Casa Vida, com o objetivo de acolher crianças órfãs e portadoras do vírus HIV. Até hoje é diretor da casa.
      Agora, tudo isso é abafado ou relegado ao esquecimento, diante de acusações que partem de pessoas que ele acompanhou e pelas quais lutou. Não se trata de julgar tais pessoas. São irmãos e irmãs nossos com toda uma história de vida marcada pelo sofrimento e pela rejeição. São mais vítimas do que culpados. Da mesma forma que não se trata de endeusar o Pe. Júlio. Ele é um ser humano, frágil e limitado como todos nós. E é certamente a sua fragilidade que o faz tão humano e solidário. O risco está em parar no erro ou nas acusações contra alguém; em rotular as pessoas a partir de um acontecimento isolado, e não daquilo que a pessoa é de fato.
      Mário Ottoboni, idealizador e criador do método APAC para recuperação de pessoas condenadas, diz “que todo homem é maior que seu erro”. Aí está uma grande verdade, tão esquecida por nós. Como os fariseus, temos a mania de rotular o outro: pecadora, adúltera, samaritana, cobrador de impostos... Jesus, com seu amor e sabedoria, sempre os ajuda a enxergar além. Por trás daquela pecadora está uma mulher que muito ama (cf Lc 7,36ss). A mulher adúltera talvez seja antes de tudo vítima de tantos adúlteros que a usam e, talvez até por sentimento de culpa, querem apedrejá-la (cf Jo 8,1ss). A mulher samaritana, que convivera com seis homens e não era casada, pode saciar a sede de Jesus e se transformar numa grande evangelizadora (cf Jo 4,1ss).
      E assim foi com todos os que Jesus encontrava. Sua postura era radical contra o pecado da injustiça e do desrespeito aos pequenos e fracos, mas sua misericórdia jamais excluía. Jesus não olhava para o pecado, porque enxergava com os olhos do coração e via o que a pessoa tinha de bom. “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”. Verão Deus em cada irmão, em cada acontecimento.
      A sociedade e a mídia falham ao projetar uma certa idealização das lideranças religiosas. Cobram uma perfeição impossível a seres tão frágeis. Exigem o infinito de seres finitos. Pe. Júlio dedicou sua vida aos pequenos e excluídos. Sofreu muito por causa da sua opção e, certamente, não se arrepende disso. Mas cometeu erros? Certamente. Não é anjo, não é Deus. É gente como nós. O Rabino Sobel tem um valioso trabalho em prol dos excluídos e marginalizados; sempre se dedicou ao ecumenismo, à unidade entre religiões e culturas. Estava à frente da Congregação Israelita Paulista, da qual participa há 35 anos. Uma história bonita de fé e serviço ao próximo. Errou? Sim, como todo ser humano. Mas toda pessoa é muito maior que seu erro. E o imenso bem que realiza não pode se perder no lamaçal dos pré-julgamentos e dos sensacionalismos da mídia. Gosto muito daquela prece que diz: “Senhor, que eu veja além das aparências os teus filhos, como Tu mesmo os vês. E, assim, não veja senão o bem em cada um”.


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