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Teologia da indignação

Pe. José Antonio de Oliveira

      Talvez você se assuste com o título desse artigo, mas é isso mesmo. Gostaria de chamar a atenção para esse aspecto da fé que quase nunca é lembrado. Sinto que falta um pouco mais de indignação em nós, cristãos e cidadãos. A impressão é de que somos muito passivos. E, quando nos indignamos, muitas vezes erramos o alvo.
      É bom lembrar que o Deus da Bíblia, embora misericordioso, demonstra muitas vezes ira e indignação. Só para citar alguns exemplos: Quando o povo abandonou a Aliança, “Javé os arrancou do próprio solo com ira, furor e grande indignação” (Dt 29,27). Contra o Faraó que oprimia o povo, sua ira chega a assustar (cf. Ex 7-11). Aos que fazem sofrer os pequenos, ameaça: “Se alguém afligir a viúva ou órfão, minha ira se acenderá” (Ex 22,22-23).
      Jesus também teve seus momentos de indignação. No Templo, contra aqueles que exploravam os pobres em nome da religião, “fez um chicote para bater, derrubou as mesas e esparramou pelo chão o dinheiro dos cambistas” (Jo 2,14-16). Na sinagoga, quando entra um homem com a mão atrofiada, e ele percebe que todos estão de olho para ver se vai curar em dia de sábado, é esta sua reação: “repassando sobre eles um olhar de indignação, e entristecido pela dureza do coração deles”, chama o homem para o meio (Mc 3,1-6).
      Santo Agostinho dizia que “a esperança tem duas filhas lindas: a indignação que nos ensina a não aceitar as coisas como estão, e a coragem que nos motiva a mudá-las”. Parece que nossa esperança está um tanto estéril. Diante de tanta corrupção, impunidade, injustiça, desigualdade social, omissão, o que temos feito de concreto?
      Pobres são presos e mofam na cadeia, muitas vezes sem julgamento. Pais de família são presos por estarem pescando em época ou locais proibidos, sem saber, por matarem um anu ou retirar casca de árvore para chá, enquanto outros que roubam milhões, queimam índios, matam namoradas, sonegam e exploram permanecem impunes, na mordomia.
      São inúmeros os jovens, pobres, negros que estão na cadeia por não pagarem pensão alimentícia, mas se se trata do presidente do Senado Federal tudo fica diferente. Os próprios companheiros de Congresso é que têm a incumbência de julgar se o comportamento é ético ou não. As circunstâncias atuais nos permitem a dúvida: quantos estão aptos a fazê-lo?
      A desconfiança atinge, também, a sentença dos juízes que, segundo Leonardo Boff, “são fortes quando se trata dos fracos. Diante dos poderosos são covardes.” Se é senador, deputado, juiz, latifundiário, empresário, sempre se encontra uma liminar, um “habeas corpus”, um jeitinho brasileiro. Se são pobres, é a justiça cega, surda, sem coração. E nós nos calamos. Somos coniventes. Aceitamos como normal.
      E isso acontece em todos os lugares, em todos os níveis. Também em nossos municípios e comunidades. Vemos isso a todo instante em nossas prefeituras, câmaras legislativas, nos fóruns e delegacias, nas nossas Igrejas. Em Barbacena temos experimentado essa amarga realidade. O povo é humilhado, desrespeitado, pisado por quem se julga dono do poder e da lei.
      Esse vírus da falta de ética contamina a própria religião e, também aí, falta, da parte dos cristãos, a capacidade de indignar-se. Os bispos fundadores da Igreja Renascer, por exemplo, foram presos por sonegação e desvio de dinheiro, mas os fiéis os apóiam. Já o presidente nacional da Igreja do Evangelho Quadrangular, que é deputado, é acusado de contratar pistoleiro para matar um “companheiro”, mas fazem “vista grossa”. Em muitas igrejas católicas, os casamentos dos ricos, a festa de 15 anos de alguém da “alta sociedade”, os batizados de gente “fina” são mais caprichados. Já dos pobres...
      E nossa indignação onde está? Quando existe, é tímida, isolada, pouco articulada, ou se dirige às pessoas erradas. Vale lembrar aqui o grupo Skank: “A nossa indignação é uma mosca sem asas. Não ultrapassa as janelas de nossas casas”. Enquanto isso, os corruptos se unem, se organizam, avançam, pressionam, criam novos métodos...
      Você não acha que precisamos, urgentemente, de uma Teologia da indignação?!

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