O espetáculo
da crise
Padre
Geraldo Martins Dias
O
prolongamento dos depoimentos nas CPIs do chamado ‘Mensalão’
e dos Correios tem levado a mídia a voltar suas luzes quase
que totalmente para isso. O que antes despertava interesse e curiosidade
na população, já começa a ficar enfadonho.
Por um lado porque a mídia dá a entender que o Brasil
se resume às CPIs. Não se ouve falar de outra coisa.
Por outro, porque muitos atores, no afã de terem seu lugar
ao sol, invertem os papéis e atraem para si os holofotes.
A transmissão ao vivo
pela TV Senado e TV Câmara tem revelado ao Brasil a qualidade
de seus parlamentares. Fica claro, por exemplo, que todos, sem
exceção, dominam de maneira magistral a retórica
de modo a causar inveja na maioria dos brasileiros. Fica evidente,
também, que quanto mais tempo e experiência no parlamento,
tanto mais fino é o discurso. Alguns chegam a irritar o
telespectador dado o floreio e a volta que fazem para, finalmente,
dizerem o que querem dizer ou inquirir o depoente. A ironia e
o sarcasmo vêm sempre recheando as palavras dos ‘nobres’
deputados e senadores.
Outro aspecto que os brasileiros
passam a conhecer de seus parlamentares é sua capacidade
de manterem a ordem numa sessão. Poucos sabem respeitar
a vez do outro. As constantes interferências na fala um
do outro e as agressões verbais, sempre precedidas dos
elegantes termos ‘vossa excelência’, ‘vossa senhoria’, ‘o
nobre deputado’, demonstram o quanto a emoção se
sobrepõe à razão.
Também a mídia
vai dando seu show à parte. Há momentos em que confundimos
o seu papel de divulgar as informações com o das
CPIs e da Polícia de investigar. E tudo é tão
bem feito que o público nem percebe a diferença
dos papéis e o específico de cada um. A avidez pelo
furo faz alguma mídia pouco afeita à ética
esquecer-se de seu lugar. A espetacularização da
notícia é que lhe interessa a fim de que a audiência
e o lucro lhe sejam garantidos. A idéia que tentam vender,
porém, é de que querem passar o Brasil a limpo.
Não duvido disso, contudo, não creio que usem sempre
os melhores caminhos.
Toda essa crise nos ajuda,
entre outras coisas, a conhecer melhor tanto os parlamentares
quanto a mídia que temos. A mudança do que não
nos agrada está em nossas mãos.
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