Ameaça
às Rádios Comunitárias
Pe.
Geraldo Martins
O acesso de todos à informação
é fundamental para a solidificação da cidadania
e da democracia em qualquer país. A avalanche de notícias
que nos chegam a cada dia pelos mais variados meios de comunicação
não significa muita coisa. Primeiro porque cada notícia
é recorte de um todo apresentado segundo a ótica
de quem o apresenta, ainda que no esforço de ser imparcial.
Segundo porque sempre se pode perguntar que critério foi
usado para a escolha deste fato e não de outro já
que todos os meios trabalham com os limites de tempo e de espaço.
Por isso, quanto mais variados forem os meios, mais informação
se poderá obter. Daí a importância de se batalhar
pela democratização dos meios de comunicação
a fim de que não sejam monopólio dos que detêm
o poder político e econômico do país.
Um grande passo para esse fim foi
a conquista das Rádios Comunitárias, mesmo se considerarmos
limitada a lei que as regulamenta. Em todo o país já
são 2.353 rádios com outorga, superando as comerciais,
e 1.364 esperando a licença, segundo dados de julho de
2005 do Ministério das Comunicações.
No site do Observatório da
Imprensa, o professor Venício A. de Lima chama a atenção
para algo que a grande mídia pouco ou nada destacou. A
instalação, no dia 7 de dezembro, da Frente Parlamentar
de Radiodifusão (FRP). Subscrita por 136 deputados, a Frente
se apresenta como defensora dos princípios que regem a
radiodifusão segundo a Constituição. Apresenta
ainda critérios que apontam para o engessamento das Rádios
Comunitárias. Tais critérios não deixam dúvida
de que a intenção dos deputados é inibir
a ação destas rádios que podem minar o poder
de muitos políticos nas bases. A FPR chega ao desplante
de propor que não sejam abertas Rádios Comunitárias
em localidade de pequeno porte aonde existam pequenas emissoras
de rádio comerciais, principalmente se for de Ondas Médias.
Querem também que não sejam abertas em bairros centrais
de cidades não consideradas de pequeno porte ou em bairros
ou vilas aonde se encontre instalada emissora de radiodifusão
comercial e em localidades de grande concentração
de serviços de radiodifusão.
A quem interessa tudo isso? Diz
o professor Lima que “apesar das inaceitáveis limitações
impostas pela Lei 9.612/98, do obscuro processo de autorização
e das graves distorções que ocorrem no efetivo controle
comunitário das rádios, elas constituem hoje uma
forma alternativa ao sistema dominante de rádios comerciais
privadas. Talvez possam constituir até mesmo o embrião
de um futuro sistema público (não estatal) de rádio
no Brasil”. Em levantamento feito junto ao Ministério das
Comunicações, o professor constatou que 19 deputados,
dos 136 que assinam o manifesto pela Frente, têm emissora
de rádios. Entre eles, os mineiros Bonifácio (PSDB),
Cleuber Carneiro (PTB), Jaime Martins (PL) e Romeu Queiroz (PTB).
Para o professor, portanto, não é surpresa que “na
Frente Parlamentar de Radiodifusão, e em suas aparentes
boas intenções, se expressem claramente os interesses
de concessionários que consideram as rádios comunitárias
como uma ameaça aos seus negócios. Eles não
admitem a existência de qualquer alternativa efetiva ao
sistema privado. Na verdade, ignora-se o princípio da complementaridade
entre os sistemas de radiodifusão privado, público
e estatal estabelecido na Constituição que, desde
1988, deveria ser o orientador básico da radiodifusão
brasileira”.
Os deputados parecem seguir o mesmo
método do Faraó que mantinha o povo Hebreu escravo
no Egito. Diante do crescimento dos Hebreus, o Faraó determinou
que os meninos dos hebreus fossem mortos tão logo nascessem.
Dessa forma, seu poder não seria ameaçado pelos
pobres. Assim também nossos parlamentares, como medo do
avanço dos pequenos, querem cortar o ‘mal’ pela raiz. E
o melhor jeito é vestir-se com peles de carneiro e passar
a imagem de que querem defender a radiodifusão quando querem,
na verdade, assegurar seus próprios interesses, acabando
com as Rádios Comunitárias que só se estabeleceram
graças à luta de muitos que acreditam na força
da organização popular.
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