AS
APARÊNCIAS COSTUMAM ENGANAR
Padre
Geraldo Martins Dias
Os
meios de comunicação social estão cada vez
mais no centro das relações humanas. Ninguém
seria capaz de pensar a vida humana sem eles. A busca de informação
constitui, hoje, condição de sobrevivência.
Todos querem ficar atualizados e, por isso, recorrem à
imprensa que traz à tona o que, sem ela, ficaria escondido
ou à mercê de poucos. Mas, devemos acreditar em tudo
o que a imprensa divulga como se fosse a única legitimadora
de fatos e acontecimentos? Até que ponto a imprensa ajuda,
realmente, o cidadão e a cidadã comuns a se inteirarem
da verdade dos fatos? Estas não são perguntas de
fácil resposta.
São muitas as ocasiões
em que a população recorre à imprensa para
se situar. Sobre assuntos polêmicos como, por exemplo, aborto,
casamento civil de homossexuais, clonagem humana, procuram-se
com avidez, na imprensa, pesquisas que apontem a opinião
da população. E não faltam abordagens que
indiquem o número dos que são a favor e dos que
são contra sobre a matéria em questão. Em
cima dos números, vêm as opiniões e análises
dos entendidos no assunto. Nesse caso, a imprensa se torna formadora
de opinião.
Aos poucos, conceitos vão
se passando sem que deles nos demos conta. Vamos assimilando os
dados e as opiniões sem ao menos os questionar. As pesquisas,
por exemplo, revelam posições fazendo crer que o
resultado apontado traduz a opinião pública sobre
o assunto em questão. No entanto, sabemos que há
uma grande diferença entre opinião pública
e opinião do público. E, quanto mais se insiste
que esse ou aquele resultado expressa a opinião pública,
mais se procura legitimá-lo ainda que, na sociedade, haja
opiniões contrárias. O parecer da maioria parece
estabelecer o que seja opinião pública quando, no
máximo, pode significar opinião do público.
E, mesmo aqui, caberiam vários questionamentos a partir
do interesse e da ótica de quem fez a pesquisa.
Opinião pública,
segundo o sociólogo Luis Gonzales Seara “é a expressão
de atitudes coletivas sobre questões de caráter
público, inerentes ao grupo social como coletividade”.
É, portanto, diferente de opinião do público.
Intrigam-me as pesquisas de opinião no seu método
superficial de abordar os assuntos. Por exemplo, perguntar a uma
pessoa se ela é a favor ou contra o aborto traduz o que
exatamente? Afinal, em que o entrevistado se baseia para dar sua
resposta? Que valores culturais, religiosos, éticos, traz
consigo e que subjazem em sua resposta? Igualmente, perguntar
a alguém se concorda ou não com as invasões
praticadas pelos integrantes do Movimento dos Trabalhadores sem
Terra (MST) tem que objetivo? O cidadão que responde a
essa pergunta conhece o Movimento e sua forma de atuar? O resultado
de pesquisas como essas representa a opinião do público
e não, necessariamente, a opinião pública
que requer elementos muito mais profundos antes de se pronunciar
sobre determinados assuntos relevantes e de interesse público.
Temos necessidade da imprensa;
as pesquisas nos ajudam a nos situarmos diante dos grandes temas
e a opinião pública não pode ser ignorada.
No entanto, nenhuma delas tem a verdade absoluta a ponto de se
tornarem as determinantes sobre os rumos de uma nação
e de uma população. Não ouvi-las, por um
lado, é sinal de insensatez. Ouvi-las sem nenhum critério
de verdade, por outro lado, é igualmente sinal de insensatez.
As aparências costumam enganar.
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