Celebridade
é isso
Padre
Geraldo Martins Dias
Ela
tem 78 anos. Franzina e encurvada, cabelos muito brancos, é
querida da família com quem mora há vinte e dois
anos. Seus passos rastejantes anunciam de longe que se aproxima
da janela da sala para dar uma espiadinha na rua. A tosse forte
e cavernosa denuncia o grau de nicotina do cigarro de palha, vício
adquirido quando ainda era jovem e morava na roça. O riso
vem fácil quando brincam e fazem chacota com ela. Sente-se
no paraíso. Não há quem não se apaixone
pela ‘Dona Gena’, como é chamada pelos membros de sua nova
família e todos que frequentam a casa.
Nascida na zona rural da pequenina
Santo Antônio do Grama, Geni Lelis de Aciprestes é
dessas pessoas que podem ser chamadas de santas. Praticamente
abandonada pelos onze irmãos depois da morte dos pais,
Geni foi convidada a trabalhar numa família cuja mãe
acabara de falecer. Aí ela devia ser companhia para os
filhos mais novos e ajudar nos trabalhos domésticos. Em
pouco tempo, o seu jeito simples e humilde cativou a todos.
Analfabeta, ‘Dona Gena’ não
sabe nem mesmo fazer contas. Apaixonada pela roça, vibra
quando volta às suas origens. Quase sempre sozinha, conversa
com tudo. Xinga uma galinha, zanga-se com as plantas, esbraveja-se
com os cães. Quando apanhada de surpresa conversando com
estas criaturas, não se faz de rogada. É capaz de
justificar porque está tão brava com suas ‘companhias’.
Não perde o humor jamais.
Nas artes culinárias,
é perita. Usa o fogão a gás, mas contrariada.
‘Fogão bom mesmo é o de lenha’, não se cansa
de dizer. O cafezinho é quase exclusividade sua. Ninguém
faz melhor. Sua risada é prazerosa quando um dos filhos
acaba de chegar de viagem e ela, oferecendo um cafezinho novo,
ouve: “Gena, esse café está uma delícia!”.
Quando o elogio não vem, a pergunta soa despretensiosa:
“Ô Loisio, o café tá bão?”. Aloísio,
a título de provocação, responde: “Serve,
não tem outro mesmo”. Ao que ela retruca: “Coitado docê!”,
e sai para a cozinha, novamente, rindo da chacota de que foi alvo.
Se alguém lhe pergunta
do que mais gosta, responde sem receio: “Drumi”. Certa vez, alguém
ameaçou-a: “Dona Gena, vou falar pro padre que você
senta no primeiro banco da igreja e dorme o tempo todo”. Dando
uma sonora gargalhada, responde feliz: “Eu drumo mesmo. Levanto
de madrugada, faço almoço, arrumo cozinha, trato
das galinhas. De noite tê com sono. Eu drumo mesmo”.
Uma de suas maiores alegrias,
no entanto, é ter conseguido aposentadoria. Seu dinheiro
é para gastos pessoais. Pagar o corte de cabelo, comprar
os remédios e dar o dízimo. O que sobra vai para
a poupança. Mas, ela mesma, não sabe dizer quanto
tem.
Da família tem poucas
saudades. De todos, não perde a amizade da irmã
Margarida. De alguns, não gosta falar desde que foi literalmente
expulsa de casa pelo irmão mais novo há pouco mais
de 20 anos. Outra mágoa sobre a qual não conversa
é a que tem do cunhado por causa de uma pequeno terreno
que herdou dos pais cujo dinheiro apurado com a venda nunca chegou
às suas mãos.
Dona Geni é assim.
Pura, simples, transparente. Sua humildade revela a santidade
que exala de seu jeito meigo de encarar a vida. Nela não
há vaidade, ambição, maldade. É cândida!
Quem tem oportunidade de conhecê-la é capaz de crescer
porque percebe como Deus fala através dos simples e pequenos.
Ela é, verdadeiramente, uma celebridade!
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