Uma vida nas mãos do presidente
Padre
Geraldo Martins Dias
“Quando
cessa o entendimento e a razão, a loucura fala mais alto”.
Esta afirmação está no final da carta que
o bispo de Barra (BA), Dom Luiz Cappio, escreveu ao presidente
Luiz Inácio Lula da Silva dia 26 de setembro. Nesta data,
o bispo, que está em Cabrobó (PE), entrou em greve
de fome por causa do projeto do governo de transposição
do Rio São Francisco. Ele está decidido a morrer
por essa causa, se preciso for. Não que queira isso.
Esta atitude extrema de Dom
Luiz revela não só coragem e ousadia, mas também
um profundo sentimento cristão de compromisso com a vida
dos pobres. Ele conhece como poucos o sofrimento da população
ribeirinha e sabe que consequências a transposição
pode trazer ao povo que ele aprendeu a amar e servir.
A greve deflagrada pelo bispo
tem, também, consequências políticas muito
fortes porque não deixa de ser uma denúncia ao governo
Lula que, historicamente, sempre defendeu as causas dos mais pobres.
No entanto, não são poucos os que reclamam uma mudança
de posição em relação a algumas políticas
que ferem frontalmente os ideais de defesa e promoção
da população excluída. Ainda que se reconheçam
alguns avanços nos programas sociais desenvolvidos por
seu governo com todas as críticas que a eles fazemos.
Muitos têm se pronunciado
contra a transposição do São Francisco e
apontam as mais diversas causas. Ninguém, porém,
havia chegado a uma atitude tão radical. Isso revela o
quanto é séria essa questão e requer um olhar
mais atento de toda a sociedade. Não creio que Dom Luiz
faria greve de fome se não estivesse convencido dos danos
que podem advir da transposição do rio. Seu ato
é patriótico e, ao mesmo tempo, heróico.
Traz de volta o profetismo da Igreja que anda tão escondido
nos últimos tempos.
Em todo o país, já
se formou uma corrente de apoio e solidariedade ao gesto do bispo.
Ele não está sozinho e é preciso que o presidente
Lula perceba isso e não menospreze nem desdenhe a força
desta atitude que não é isolada. E se, para a nação,
não está claro o que fez Dom Luiz, o mesmo não
pode dizer o presidente. O último parágrafo da carta
que recebeu do prelado baiano não deixa dúvidas.
“Em meu gesto não existe nenhuma atitude anti-Lula neste
momento delicado da vida nacional. Pelo contrário. Quem
sabe seja uma maneira extrema de ajudá-lo a entender pelo
coração aquilo que a razão não alcança.
Tenha certeza, é um profundo testemunho de amor à
vida. Minha vida está em suas mãos”.
Todos aguardamos um pronunciamento
do Lula. E que não seja tarde demais.
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