Padre Geraldo Martins
Dias
Quem pensa que, terminado
o segundo turno no domingo passado, acabou o clima
de eleições no Brasil está
enganado. A contagem de votos do segundo turno
nem havia começado e lá estava a
televisão com sua “cobertura completa
das eleições”, reunindo jornalistas,
políticos e cientistas políticos
para analisar o resultado. Na segunda-feira, os
debates e análises continuaram em todos
os meios de comunicação com as repetições
de sempre: por que este ganhou e aquele perdeu?;
como foi a virada naquela capital?; qual padrinho
político foi mais determinante?; quais
partidos mais ganharam e quais ficaram mais enfraquecidos?
Tudo, porém, na ótica da sucessão
presidencial de 2010, com os analistas dizendo
até nome de quem tem mais ou menos chances
para suceder o presidente Lula.
Sem entrar no mérito
destas e outras questões, há, sim,
dados interessantes e reveladores nas eleições
que apareceram nas mesas-redondas pós-eleições.
O primeiro para o qual chamo a atenção
é o número dos prefeitos reeleitos.
Mais de 60% dos atuais prefeitos (3.435) tentaram
um segundo mandato e 66% deles saíram vitoriosos
das urnas (2.266). Isso representa 40% dos que
assumirão as prefeituras a partir de janeiro.
Os dados são da Confederação
Nacional dos Municípios (CNM). Aqui, há
pelo menos duas hipóteses: ou de fato a
população que reelegeu seus prefeitos
ficou satisfeita com seu trabalho e optou pela
continuidade, ou pesou a estrutura da máquina
administrativa. Na primeira hipótese, saem
fortalecidos os que defendem a reeleição;
na segunda, ganham força os contrários
a esse sistema que começou a vigorar em
2000.
Outro dado interessante
é que 90,9% dos eleitos são homens.
Isso revela que o mundo da política é
predominantemente masculino, ainda que consideremos
o avanço da participação
das mulheres em relação às
eleições anteriores. Acredito que
esse quadro mudará a cada eleição,
considerando que a mulher está cada vez
mais presente em setores da sociedade nunca antes
imagináveis.
A idade dos eleitos
é outro fator a ser considerado. Segundo
a CNM, 71% dos eleitos têm entre 36 e 55
anos. Quantos desses significam prolongamento
dos caciques da política ou esses seriam
figura em extinção?
Em relação
aos partidos, até certo ponto, nenhuma
novidade. PMDB, PSDB, PP, PT e DEM, nesta ordem,
reinam absolutos em números de prefeituras
e de votos conquistados, apesar das grandes perdas
do DEM e do PSDB. É claro que isso terá
muito peso na eleição de 2010.
Até
que ponto o apoio do presidente da República
ou dos respectivos governadores ajudou os eleitos?
Este foi outro tema das análises pós-eleição.
Embora não se tenha uma estatística,
a idéia que predomina é que o voto
não se transfere e que o eleitor se mostrou
soberano no seu direito de escolher. Verdade ou
não, em alguns municípios, o apoio
do Governador foi fundamental para a vitória
do candidato. Em outros, porém, a derrota
foi inevitável. A aliança por si
não garante a vitória. O candidato
precisa ter um mínimo de empatia e ganhar
a confiança do eleitor.
As eleições
foram uma festa da democracia. Concordo. Como
não lamentar, porém, os eleitos
com pendência na justiça e a compra
de votos que ainda se viu nestas eleições?
Não podemos nos acomodar com os avanços
que tivemos, nem desanimar diante de vícios
que se repetiram. É sempre oportuno lembrar
que nossa participação política
não se esgota com o voto, mas começa
com ele. Por meio dele, nos tornamos co-gestores
com os eleitos. Acompanhá-los em sua gestão
é um dever que se nos impõe sob
o risco de, não o fazendo, vermos aumentar
o sofrimento dos que o sistema exclui e descarta.
Para
falar com o autor: gedias@uai.com.br
<- Volta a página principal ->
|