Padre Geraldo Martins
Dias
A
capela não cabe mais que cem pessoas. Os
bancos estão bem dispostos, a ventilação
é boa, o sistema de som atende perfeitamente,
favorecido por ótima acústica. Faltando
entre 30 e 40 minutos para a missa, os membros
da equipe de canto são os primeiros a chegar.
Só para montar a parafernália instrumental
levam de 15 a 20 minutos. Trazem a própria
caixa amplificada (às vezes, mais de uma)
e os microfones, quase sempre melhores que os
da capela e, dificilmente, menos que cinco.
Concorrendo
com os microfones estão os instrumentos
que variam de violão a guitarra, passando
por teclado, bateria e contrabaixo. Tudo montado,
é hora de repassar as músicas que,
com raras exceções, atendem mais
ao gosto dos músicos do que à exigência
do mistério que se celebra. Cantam na liturgia
e não a liturgia, com a desculpa de que
a celebração precisa ser animada.
Estas
cenas têm se tornado muito comuns em nossas
comunidades. Não faz muito tempo, pude
ver tudo isso numa comunidade cuja celebração
presidi. Lembrei-me logo de uma reunião
em que um bispo falava desta questão. “Quando
vou celebrar numa comunidade, a primeira coisa
que faço é trocar o meu microfone
com algum dos cantores. Os microfones deles são
muito melhores que os da Igreja”, disse
o bispo, arrancando gargalhadas e o assentimento
dos presentes.
Nas
comunidades onde isso acontece, os vocalistas
se esbaldam nos microfones. O volume, do tipo
‘quanto mais alto melhor’, parece
ultrapassar o limite tolerável dos decibéis.
Resultado: a liturgia fica cansativa e barulhenta.
Nem se consegue perceber se a assembléia
está cantando ou não. Faz lembrar
mais uma platéia de espectadores que uma
assembléia que concelebra.
Chama
atenção, ainda, a forma variada
com que os puxadores de canto se posicionam diante
dos microfones: uns preferem o pedestal, outros
não abrem mão de segurá-los
(isso garante a posse). De uma forma ou de outra,
a impressão que fica é a de que
vão engolir o microfone, tal a proximidade
que o colocam da boca.
O
mal uso do microfone, contudo, não tem
sido privilégio dos cantores. Está
virando moda, também, o comentarista se
apossar dele para responder à missa. Em
alguns lugares, ele até ganha a ajuda solidária
(ou seria concorrência?) dos cantores. Que
pena! Além de tornarem a celebração
mais barulhenta, acabam roubando da assembléia
seu direito de participação, tratando-a
como ignorante, que não sabe responder
às orações da celebração.
Seria tão bom se o comentarista usasse
o microfone somente para comentar e não
para responder as orações da missa!
Certamente
muitos agem assim de boa fé, mas alguém
precisa corrigi-los, dar-lhes formação
adequada. Até que ponto, porém,
estão abertos a isso? Já ouvi testemunho
de padres que tiveram sérios problemas
com as equipes de canto por discordarem das orientações
no uso dos microfones e dos instrumentos. No espírito
da ‘conversão pastoral’ exigida
pela Conferência de Aparecida, eis aí
um ponto que merece nossa reflexão.
Para
falar com o autor: gedias@uai.com.br
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