Combate
à intolerância religiosa
Pe.
Geraldo Martins
No
Brasil, existe intolerância religiosa? É provável
que muita gente, irrefletidamente, afirme que não. Outras
pessoas, antes de responderem, talvez perguntem o que, realmente,
caracteriza intolerância religiosa. Algumas, contudo, dirão
que há, sim, intolerância religiosa no país
e apresentarão fatos para provar o que afirmam.
O
debate sobre a intolerância religiosa é suscitado
pela data que se comemora hoje, pela primeira vez: Dia Nacional
de Combate à Intolerância Religiosa. Instituída
pela Lei 11.635, sancionada pelo presidente Lula no dia 27 de
dezembro de 2007, a data será lembrada com um evento, em
Brasília, organizado pela Secretaria Especial de Direitos
Humanos da Presidência da República (SEDH) em parceria
com a Secretaria Especial de Políticas de Promoção
da Igualdade Racial e o Ministério da Cultura.
Se
entendermos por intolerância religiosa apenas os conflitos
religiosos que ocorrem em alguns países, como vemos nos
noticiários das TVs e nos jornais, afirmaremos que o Brasil
é um país onde as religiões convivem de maneira
harmoniosa e pacífica e que nele não existe a prática
da intolerância. No entanto, é preciso cuidado, porque
existem muitas atitudes que, bem analisadas, provam o contrário.
Em
2003, a SEDH publicou uma cartilha na qual ensina que invadir
terreiros; desrespeitar a espiritualidade dos povos indígenas
ou tentar impor a eles a visão de que sua religião
é falsa; agredir ciganos devido à sua etnia ou crença
é intolerância.
Segundo
o monge beneditino, padre Marcelo Barros, “a escolha do dia 21
de janeiro para esta data de combate à intolerância
religiosa não foi por acaso. No dia 21 de janeiro de 2000,
no Rio de Janeiro, morreu a Mãe Gilda de Ogum. Ela teve
um enfarte fulminante quando viu crentes que se consideram evangélicos
invadirem e destruírem a sua casa de culto (Abassá
de Ogum)”.
Barros
lembra alguns fatos, ocorridos no Brasil, que caracterizam sua
intolerância religiosa. “Embora os meios de comunicação
quase não publicam, ainda proliferam no Brasil, aqui e
ali, alguns conflitos violentos entre membros de determinadas
Igrejas e outras confissões religiosas. Em Campina Grande
(PB), já há quase 20 anos, acontece um "Encontro
da Nova Consciência" que reúne pessoas de várias
tradições espirituais comprometidas com a paz. Há
alguns anos, crentes de algumas confissões cristãs
organizaram ao lado um encontro paralelo: "Encontro da Nova
Consciência com Cristo" que não admite pessoas
que não sejam de suas Igrejas. Estes fazem manifestações
com som alto, justamente quando os religiosos das diversas tradições
se unem para orar pela paz. No ano passado, crentes deste grupo
fundamentalista invadiram a celebração ecumênica
feita pelos outros religiosos para impedir que os Hare-krisna
cantassem seus mantras e expulsar o demônio dos adeptos
da Umbanda e do Candomblé. Eu e vários irmãos
tivemos de atuar para impedir um confronto e para responder à
revolta das pessoas agredidas que abriram um processo judicial
contra os agressores”.
Chamam
atenção, também, algumas pregações
religiosas que, em nome de defender os princípios da própria
Igreja, desrespeitam os de outras numa autêntica demonstração
de intolerância e desrespeito à verdade do outro.
Tais atitudes são regadas por inexplicáveis fundamentalismos
e sectarismos que impedem qualquer possibilidade de diálogo
e de convivência harmoniosa entre os diferentes.
Diante
disso, faz sentido chamar a atenção para essa realidade
desconhecida pela maioria da população brasileira.
Urge educar a humanidade para o convívio respeitoso na
diferença, cultural e religiosa, que caracteriza a pluralidade
de povos e etnias. Em se tratando da religião cristã,
tal propósito vem ao encontro ideal cristão de “que
todos sejam um” (Jo 17,21).
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