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Não basta estar no ar

Pe. Geraldo Martins

   Há um mês, num domingo, em visita ao distrito da antiga Vila Rica, Cachoeira do Campo, onde fui pároco por quase sete anos, pude compreender melhor como uma rádio comunitária tem papel fundamental na preservação e divulgação da cultura local. Acabara de celebrar a missa das 8h na matriz da cidade, um belo templo de 1710 que ostenta a riqueza da arte da primeira fase do barro mineiro, quando ouvi sons de uma banda vindos do salão paroquial. Imaginei logo tratar-se de alguma festa ou comemoração. Não resisti e entrei para averiguar.
  
As cem cadeiras do salão estavam completamente tomadas por um público que, atento, assistia, quase em êxtase, à apresentação da Sociedade Musical União Social, uma das bandas mais antigas de Cachoeira do Campo, também conhecida como “Banda de Baixo”, uma referência à localização de sua sede em contraposição à sede da outra banda do distrito, Euterpe Cachoeirense, ou simplesmente, “Banda de Cima”. Os que não encontraram assento amontoaram-se, de pé, no fundo do salão para acompanhar a apresentação da “Banda de Baixo” que se estenderia até o meio dia.
  
Minha surpresa foi quando, terminada a execução de uma peça, entra um apresentador, microfone à mão, agradecendo à participação de ouvintes e atendendo os que ofereciam as próximas músicas a aniversariantes, amigos, familiares etc. Só aí percebi que se tratava da transmissão, ao vivo, do programa Pra ver a banda passar, uma das atrações dominicais da Sideral FM, a rádio comunitária de Cachoeira do Campo, que brindava a comunidade com uma programação especial de natal. O apresentador não dava conta de atender a tantos pedidos e solicitações dos ouvintes que naquela manhã de domingo, acompanhavam a programação numa prova inequívoca de que, em alguns casos, santo de casa faz milagres.
  
Acompanhei por algum tempo a União Social admirando a harmonia de seu som e seu orgulho de perpetuar uma história de mais de cem anos. Ao sair, informaram-me que, no domingo seguinte, seria a vez da Euterpe Cachoeirense. Lamentei profundamente perder sua apresentação que, conheço bem, sempre emociona e extasia o público. Também essa ostenta uma história secular que honra os cachoeirenses e eterniza uma cultura que atravessa gerações.
  
Quando iniciamos a Sideral FM, a grande preocupação era fazer uma rádio que fosse, de fato, comunitária. Para tal, teria que valorizar a cultura local e se tornar espaço para aqueles cuja voz só se ouviria numa rádio de características populares e comprometida com as causas da justiça, da cidadania e do respeito aos direitos humanos. A Sideral FM está na direção certa e mostra que leva a sério seu lema: Não basta estar no ar, tem que ser comunitária!

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