Padre Geraldo Martins
Dias
A bola da vez, nos meios de comunicação
e em todo lugar, é a crise financeira mundial.
Quantos entendem o que significa e quais suas
conseqüências é difícil
dizer, considerando que a maioria de nós
pouco compreende o “economês”
usado para explicá-la. De uma coisa, porém,
ninguém duvida: o problema é sério
e atingirá a todos. Até quando vai?
Nenhum economista, vidente mais requisitado para
o assunto, ousa arriscar um palpite. A maioria,
no entanto, concorda em pelo menos duas coisas:
a crise não é de agora e sua duração
não será tão breve quanto
se pretende.
Esta
crise, originada na maior potência econômica
do mundo, na leitura de muitos, denuncia a falência
do sistema capitalista neoliberal que idolatrou
o mercado, expurgando o Estado de setores importantes
e enaltecendo o privado que produz mais e melhor
com muito menos, ao contrário do Estado,
tido como mau gestor. O jornalista José
Aberx Júnior escreveu na Caros Amigos:
“Todas essas crises são manifestações,
em planos distintos, do mesmo fenômeno:
a impossibilidade da ordem mundial neoliberal.
Não há como manter o padrão
de consumo e desperdício praticado nos
Estados Unidos e pelas camadas mais ricas da população
mundial, nem é sustentável uma lógica
que transforma alimento em combustível,
com a conseqüente criação de
imensas monoculturas e devastação
de campos e florestas”.
O
consumismo, portanto, estimulado pelo capitalismo
chegou ao seu extremo e está na base desta
crise, dada a facilidade de crédito que
seduz a todos. Comprar sem dinheiro agora é
possível graças ao crédito
fácil oferecido pelos bancos e financiadoras.
Um exemplo claro vem setor automobilístico.
Nunca se viu tanto carro zero na praça!
O
presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas, economista Márcio Pochmann,
fez uma análise interessante a respeito
do consumismo. Ele disse que, há cem anos,
as famílias tinham em média 15 a
20 pessoas, que moravam em casas pequenas, e a
expectativa de vida das mulheres era de 35 a 40
anos. Hoje, as famílias têm em média
quatro pessoas, a expectativa de vida das mulheres
é de 72 anos, as casas são três
a quatro vezes maiores e não têm
espaço porque estão cheias de bens
acumulados pelo desejo desenfreado do consumo.
Todos
estamos de acordo que o Estado precisa agir para
estancar a crise e evitar um colapso total das
nações. Neste sentido, assistimos
à busca quase desesperada de solução.
As famosas Bolsas de Valores parecem pacientes
na UTI, agonizando em estado terminal, com os
batimentos cardíacos oscilando de forma
dramática. Os Governos dos países
mais ricos do mundo, como uma junta médica
a discutir o melhor remédio para salvar
o paciente, decidiram aplicar uma injeção
de incalculáveis dólares ou euros
para acalmar o mercado agonizante. Só o
Banco Central dos Estados Unidos destinou, até
meados de setembro, um trilhão de dólares,
cerca de 10% do PIB estadunidense, para socorrer
bancos e seguradoras falidos.
E
o Brasil, como fica diante da crise? Na opinião
do presidente do IPEA, o Brasil hoje está
melhor que há dez anos e reage bem à
crise. Ele não acredita, porém,
que seja possível manter o nível
de desenvolvimento e entende que a saída
é aumentar o gasto público. “Isso
significa gastar o superávit primário”,
afirma Pochmann.
Continuamos
a acompanhar o desenrolar dos fatos, assistindo
aos telejornais, lendo os economistas, trocando
idéias e até arriscando palpites
sobre a crise financeira mundial, torcendo para
que seja debelada o quanto antes. Ao ver, porém,
a solicitude dos países ricos que abrem
seus cofres e sacam tanto dinheiro para socorrer
os bancos, fica uma dúvida: por que nunca
tiveram a mesma solicitude com os que morrem de
fome? No dia em que abrirem os cofres também
para os pobres, o outro mundo possível
nascerá.
Para
falar com o autor: gedias@uai.com.br
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