Padre Geraldo Martins
Dias
Quando,
em 1999, o Congresso Nacional aprovou a Lei 9.840,
fruto da primeira iniciativa popular, os incrédulos
bradaram: “o papel aceita tudo!”.
Não é de tirar-lhes, de todo, a
razão, afinal, a compra de votos e o uso
da máquina administrativa nas campanhas
eleitorais, prática combatida pela Lei
aprovada, tornaram-se como que uma cultura construída
ao longo da história. A profundidade de
sua raiz levou à incredulidade na política
e como que ensinou a população a
conviver de forma pacífica com tal procedimento.
Passados
quase dez anos, o saldo de mais de 600 políticos
cassados com base na referida lei, conforme estatística
divulgada pelo Movimento de Combate à Corrupção
Eleitoral (MCCE), nos credencia a afirmar que
estavam equivocados os que pensavam não
haver solução para o fim da corrupção
eleitoral. Nossa ânsia de querer o fim total
de corruptos na política não pode
cegar-nos, impedindo-nos de ver o quanto já
se caminhou. Somos movidos pela esperança
que se alimenta de sinais concretos de vitórias
em batalhas por muitos julgadas perdidas como
a da corrupção eleitoral.
Se
hoje podemos nos alegrar com essa vitória,
cuja tendência é ampliar na medida
em que os resultados provam que a 9.840 não
está só no papel, devemos reconhecer
o papel preponderante da população
que deu seu aval e se fez sujeito do projeto,
que culminou com a lei, ao assinar o primeiro
Projeto de Lei de Iniciativa Popular na história
do Brasil. Sem a participação popular,
que continua nos inúmeros Comitês
9.840 espalhados pelo país, a lei nem existiria.
O
sucesso da 9.840 e a urgente necessidade de estancar
outros veios por onde grassa a corrupção
eleitoral levaram a CNBB e o MCCE a convocar a
população, mais uma vez, a exercer
seu protagonismo político propondo um novo
projeto de lei de iniciativa popular. O raciocínio
é simples. A política, na sua origem,
é limpa, cristalina. Se está suja,
como aparece na argumentação de
todos que afirmam detestá-la, é
tão somente porque alguém a está
sujando. Qual a solução? Impedir
a entrada destes na política. Este é
o objetivo do novo projeto: alterar a Lei 64,
de 18 de maio de 1990, que trata da inelegibilidade
dos candidatos.
Neste
sentido, há, basicamente, três alterações
propostas no novo projeto: a) amplia para oito
anos o tempo de inelegibilidade dos que cometeram
as irregularidades previstas na lei (em alguns
casos, esse prazo era de três ou quatro
anos); b) torna inelegíveis “os que
forem condenados em primeira ou única instância
ou tiverem contra si denúncia recebida
por órgão judicial colegiado pela
prática de crime”; c) ficam inelegíveis
também “os que renunciarem a seus
mandatos após a apresentação
de representação ou notícia
formal capaz de autorizar a abertura de processo
disciplinar por infringência a dispositivo
da Constituição Federal, da Constituição
Estadual, da Lei Orgânica do Distrito Federal
ou da Lei Orgânica do Município”.
Dificilmente
um parlamentar iria propor um projeto como este,
considerando o corporativismo que há entre
a maioria dos políticos. Mesmo que houvesse
grupos com idoneidade para fazer tal proposta
(e há, é bom que se diga), a resistência
seria previsível. Ao passo que, vindo das
bases e expressando um clamor do povo, a força
é outra e a resistência dos que aprovam
as leis se dissolve com facilidade. Eis porque,
mais uma vez, os eleitores são chamados
à responsabilidade no seu dever de cidadão
e fazer valer o direito que lhes é garantido
pela Constituição, apresentando
ao Congresso o segundo projeto de lei de iniciativa
popular.
A
luta é árdua, afinal, serão
necessárias cerca de 1,5 milhão
de assinaturas (1% do eleitorado) que devem ser
acompanhadas dos dados do eleitor. Além
disso, assim que a campanha estiver nas ruas,
as vozes do contrário começarão
a esbravejar e a dizer impropérios contra
a proposta que vem para dar mais um passo na moralização
da política brasileira. Isso, é
claro, contraria muitos interesses particulares
e de grupos. Conhecer o projeto de lei, portanto,
é fundamental para desautorizar os que
falarão contra ele.
A
sociedade brasileira tem mais uma oportunidade
de ouro para ser protagonista de sua história.
Não podemos deixar passar esta oportunidade.
Ás lideranças cabe o papel preponderante
de fazer chegar a todos a discussão do
projeto e animar as comunidades a assumirem seu
papel de construtora de sua história. Os
cristãos, especialmente, são convocados
a participar desse processo inspirados no ideal
de justiça e de caridade, base do Reino
de Deus pregado por Jesus Cristo. Ninguém
pode se omitir.
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