Muita
missa, pouca celebração
Pe.
Geraldo Martins
A
necessidade de se convocar o povo para discutir alguns assuntos
de interesse de todos levou o líder de uma determinada
comunidade a propor ao padre: “vamos marcar uma missa para as
19 horas e, depois da missa, a gente faz a reunião”. Dito
e feito.
Esse
fato aconteceu realmente e foi objeto de observação
de alguém que disse: “houve um tempo em que a missa reunia
a comunidade para celebrar o mistério pascal, agora, ela
está se tornando um ‘chamarisco’ quando se quer convocar
o povo para outras atividades”.
Isso
se deu há muito tempo. Fico imaginando, no entanto, se
ainda não é assim quando me lembro das inúmeras
missas verdadeiramente particulares que se celebram aqui e acolá.
É só a gente pensar nas famosas celebrações
de 15 anos, formatura, corpo presente, sétimo e 30º
dia, bodas de casamento, inauguração de obras públicas
e tantas outras que conhecemos.
O
documento Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, afirma textualmente
referindo-se à participação do povo durante
missa: “A Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os
cristãos não entrem neste mistério de fé
como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação
sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão
dos ritos e orações; sejam instruídos pela
palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor;
dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos,
ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só
pelas mãos dele, a hóstia imaculada”.
Um
olhar atento para alguma das celebrações citadas
acima nos faz perceber que os elementos indicados nesta palavra
do Concílio estão longe de acontecer. Quem nunca
viu, por exemplo, numa missa de formatura, a dispersão,
o exibicionismo? É grande o número dos fiéis
que, nessas missas, olham mais para os formandos e formandas que
para o altar e o mistério que nele se celebra. Não
respondem a uma palavra do rito. São “estranhos e espectadores
mudos”. Ah, nem tão mudos assim. Às vezes atendem
o celular que ficou ligado por ‘esquecimento’.
A
contratação de belos corais que dão show
é outra maneira de tirar o sentido comunitário da
eucaristia. Como se não bastasse, muitas músicas
não condizem com a liturgia. É claro que há
exceções. Raríssimas, diga-se de passagem.
Há, ainda, os atrasos, as procissões de entrada
que nunca terminam, o barulho no interior da igreja que quebra
qualquer clima para celebrar bem. E cada turma tem que ter ‘a
sua missa’.
As
missas ‘especiais’ de 15 anos e bodas também não
ficam para trás. Em muitas delas, o luxo das roupas, a
filmagem e a fotografia, tudo obscurece a centralidade do mistério
pascal. Quando a paróquia tem como norma fazer tais celebrações
no horário normal da comunidade, o mundo vem abaixo.
Que
dizer, também, das missas de inaugurações
públicas e de confraternização de final de
ano ou outras comemorações de empresas, grupos e
organizações? Tudo tem que ser particular: o horário,
as músicas, o local, o padre... Autoridades impecavelmente
vestidas ocupam lugar de destaque, a formalidade elimina todo
caráter familiar que deve marcar a eucaristia.
A
questão que se põe não é deixar de
celebrar tais missas, mas integrá-las e inseri-las na vida
da comunidade de tal forma que percam o caráter de particular
e se tornem momento comum da comunidade. Daí a necessidade
das paróquias terem boas equipes de liturgia a quem caberá
a tarefa de fazer essa integração. Já pensou
alguém dizer: “não posso ir a tal missa porque não
fui convidado”? A eucaristia não tem dono. Ela é
o memorial do Cristo que deu a vida por nós. Cuidar para
que a missa não seja instrumentalizada é dever de
todo católico. Para tanto, urge amadurecer a própria
fé e entender o que significa esse mistério. Do
contrário, continuaremos tendo muita missa e pouca celebração.
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