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A Conferência de Aparecida

Pe. Geraldo Martins

   O mês de maio marcará a vida da Igreja do Brasil com três grandes acontecimentos: a 45ª Assembléia Geral da CNBB, a visita do papa e a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho ou simplesmente Conferência de Aparecida.
   A Assembléia dos bispos do Brasil chama a atenção porque, em primeiro lugar, refletirá o tema da Conferência de Aparecida e, certamente, confiará aos seus delegados para o encontro latino-americano as contribuições da Igreja do Brasil que, imagino, terão muito peso pelo fato da Conferência ser realizada em nosso país e pelo respeito que nosso episcopado conquistou neste continente não só pelo seu número, mas, sobretudo, pela sua colegialidade e organização pastoral. Em segundo lugar, nessa Assembléia, haverá a eleição da nova Presidência da CNBB.
   A visita do papa e a Conferência de Aparecida têm estreita e inseparável relação. A bem da verdade, Bento XVI vem para a Conferência cuja abertura oficial lhe cabe. Esse compromisso é que o motivou a vir antes e visitar São Paulo e Aparecida passando por Guaratinguetá, caracterizando, assim, uma ‘visita ao Brasil’. As expectativas são muitas e a cobertura da mídia tem criado um clima de ansiedade e comoção sem, contudo, apontar para o acontecimento, digamos, prioritário que é a V Conferência.
   Para quem acompanha o dia-a-dia da Igreja Latino-americana e Caribenha, a Conferência de Aparecida é que está no centro dos acontecimentos eclesiais de maio. E, nela, a presença do papa que, com seu discurso inaugural, revelará seu pensamento sobre o ser discípulo e missionário de Jesus Cristo numa América Latina e Caribe de maioria católica, mas que enfrenta enormes desafios tanto na evangelização quanto na consolidação de estruturas democráticas que viabilizem vida digna, especialmente para os milhões de pobres e excluídos que vivem nesse ‘continente da esperança’.
   A V Conferência tem despertado tanto sentimentos de esperança quanto, diríamos, de desconfiança. Alguns entendem que a visita do papa como que ofuscou a Conferência aqui no Brasil. Em parte isso é verdade. Se perguntarmos às comunidades o que vai acontecer no mês de maio, todas responderão: a visita do papa. Se indagarmos sobre a Conferência, muito poucas saberão responder. Entretanto, a visita de Bento XVI se encerra exatamente no início da Conferência e ele pode dar-lhe essa visibilidade que se quer.
   Os que olham com certa desconfiança dizem, ainda, que a recente condenação ao teólogo Jon Sobrino é prenúncio da direção da Conferência a despeito de muitos pensamentos e publicações boas que saíram nesse período de preparação apontando na direção de uma retomada da Igreja dos tempos de Medellín e Puebla.
   Já os esperançosos entendem que o fato da Conferência se realizar no Brasil cuja Igreja tem uma longa e positiva experiência e organização pastoral contará a favor para que o evento latino-americano reacenda a chama da esperança e do entusiasmo dos que sonham com uma Igreja marcadamente incultura, servidora dos pobres, aberta e dialogante com o mundo na sua plural diversidade.
   A maioria das contribuições para a preparação da Conferência de Aparecida reivindicam, para a Igreja da América Latina e do Caribe, a retomada das grandes linhas do Concílio Vaticano II a partir dos caminhos delineados por Medllin e Puebla. Assim, aparece forte o desejo de se reafirmar, de maneira contundente, a opção pelos pobres, pelas CEBs, pelos ministérios leigos. Da mesma forma, a expectativa é de que se discuta o papel e o lugar da mulher na Igreja, o ministério ordenado em relação às comunidades privadas da eucaristia no Dia do Senhor e tantas outras questões que têm ficado escondidas nos últimos tempos.
   Sobre esses e muitos outros assuntos fala o documento síntese do Celam. Também o documento síntese da CNBB aborda essas questões de maneira profética e corajosa. A pergunta que fica, da parte de muitos, é se haverá, entre os delegados, alguém capaz de defender essas questões vitais para a nossa Igreja.
   Acredito que o Espírito, que sopra onde e quando quer (cf. Jô 3,8), não deixará passar em branco este momento histórico para nossa Igreja. Sou dos que têm esperança com os pés no chão. O sangue dos mártires de nossa América Latina e o testemunho de seus profetas haverão de inspirar o coração e a mente dos bispos delegados da Conferência que têm a intransferível responsabilidade de confirmar a Igreja da América Latina e do Caribe no caminho da opção pelos pobres e excluídos, juízes de nossa história, prediletos do Reino.

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