Esperança
apesar dos desafios
Pe.
Geraldo Martins
Acabo
de participar do 2° Seminário Nacional sobre Santas
Missões Populares realizado pela CNBB em Belo Horizonte
nesta semana. Os 80 participantes, trazendo sua rica e plural
experiência missionária, desenharam um rosto eclesial
ora irradiando alegria, sonhos, esperança e entusiasmo,
ora transpirando preocupação e ansiedade ante os
incontáveis desafios que se interpõem à Igreja
na sua existencial missão de anunciar Jesus Cristo e seu
Reino no contexto de um Brasil e de uma América Latina
marcados pela pobreza e pela exclusão social.
Ficou
claro, por um lado, que a Igreja não está parada.
Há muita gente se consumindo no árduo e belo trabalho
de levar a mensagem de Jesus Cristo às pessoas. São
leigos, religiosos e religiosas que abrem mão de tudo,
vivendo uma pobreza evangélica exemplar, totalmente voltados
para o serviço da missão. Não temem o sofrimento
nem as dores que acompanham o missionário e a missionária
inseridos na vida e na luta do povo. Alguns deles, vítimas
de ameaça de morte, como Jesus, destemidamente, seguem
seu caminho. E Deus tem feito maravilhas neles e por eles.
Apesar
disso, o Seminário mostrou que não são poucos
os desafios postos à missão. Quero citar três
entre os muitos que vi emergirem do encontro. O primeiro deles
diz respeito aos objetivos da missão. Apesar de haver incontáveis
experiências missionárias, uma pergunta surge inquietante:
para que fazer missão? Com que objetivo? O questionamento,
ao que parece, nasce em face dos que pensam a missão de
forma proselitista cujo intuito é encher os templos de
católicos. Falou-se, no Seminário, até mesmo
de uma tendência à volta da ‘era da cristandade’.
Uma missão nessa perspectiva fica vazia do profetismo que
deve marcar toda a ação missionária da Igreja.
E as Comunidades Eclesiais de Base, bem como a opção
pelos pobres, acabam ficando de fora.
O
segundo desafio que me chamou muito a atenção foi
a unanimidade quanto à dificuldade de se fazer missão
nos grandes centros urbanos. Com humildade reconheceu-se que a
Igreja continua a usar métodos rurais para evangelizar
uma realidade cada vez mais urbanizada com tudo de complexo e
de diverso próprios das cidades.
Os
atores da missão também desafiam a Igreja. Por um
lado por serem poucos, por outro pela formação insuficiente
de muitos deles. Nesse item, curiosa e contraditoriamente, os
padres ficaram bem no centro. Testemunhos revelaram que muitos
padres não se abrem para a missão e não a
têm como horizonte. Entendem que o problema está
nos seminários que não alimentam nos seminaristas
a paixão pelas missões. Não é uma
posição unânime, mas apareceu bastante forte.
Com
os pés bem plantados na realidade eclesial atual, despidos
de qualquer ingenuidade, os participantes do Seminário
renovaram sua esperança de que Conferência de Aparecida
retome os caminhos do Vaticano II clareados, sobretudo, pelas
Conferências de Medellín e Puebla, e renove o compromisso
com uma missão que signifique libertação
para os pobres da América Latina e do Caribe. Uma missão
que não tenha como objetivo fazer frente ao avanço
das seitas, mas levar as pessoas ao seguimento livre de Jesus
Cristo.
Aos
delegados brasileiros à Conferência é confiada
esta tarefa de colocar e defender o sonho dos nossos missionários
e missionárias. E que, pelo Espírito Santo, esse
seja infundido no coração de nossos bispos latino-americanos
e caribenhos.
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