Será
que posso contar com você?
Pe.
Geraldo Martins
“Eu
quero o direito de ser criança; de ser esperança
de um mundo melhor. Eu quero crescer como gente. Eu quero um mundo
diferente. Será que posso contar com você?”
Há
quase anos esse verso ressoava pela primeira vez nos meus ouvidos
e no meu coração. Era padre novo e, participava,
em 1990, pela primeira vez, em São Paulo, de um curso para
agentes da Pastoral do Menor, um serviço totalmente novo
para nós da Arquidiocese de Mariana. Com a timidez e a
desconfiança características dos mineiros, observava,
do canto, os movimentos alegres e animados de leigos, padres e
religiosas a contar suas histórias de trabalho com os meninos
e meninas de rua. Seus olhos brilhavam quando explicavam como
tiveram que enfrentar a polícia para defender os adolescentes.
Outros narravam sua luta para vencer o preconceito da comunidade
que não conseguia ver os meninos e meninas como “imagem
e semelhança de Deus” dado o estado desfigurado em que
se encontravam. Recuperação? Ressocialização?
Para aqueles adolescentes isso parecia impossível.
E as histórias iam e vinham.
Os nomes dos adolescentes fluíam dos lábios dos
educadores da Pastoral de maneira tão íntima e natural
que era impossível não se perguntar: como podem
ser felizes enfrentando situações tão adversas
e correndo tantos riscos? Encerraram a sessão de troca
de experiências cantando: “Eu quero o direito de ser criança;
de ser esperança de um mundo melhor. Eu quero crescer como
gente. Eu quero um mundo diferente. Será que posso contar
com você?”
Foi assim que conheci a Pastoral do
Menor que, no último dia 5, celebrou os seus 30 anos. O
refrão jamais saiu de minha cabeça e a Pastoral
começou a fazer parte de meu ministério. Era como
se estivesse vendo e ouvindo os próprios adolescentes,
considerados escória da sociedade, gritando por vida, por
justiça, por amor. Impossível não se inquietar
com a interrogação: “Será que posso contar
com você?”.
Ah, como me lembro com saudades da
nossa Casa do Menor, no bairro Santo Antônio, em Ponte Nova,
fruto do gesto concreto da Campanha da Fraternidade da paróquia
de São Pedro, sob a liderança firme do grande companheiro,
padre José Antônio. Aberta aos meninos de rua, a
Casa queria ser o seu lar até que pudessem voltar para
junto de sua família. Como aprendi com os adolescentes
e com os educadores! Aliás, todos aprendemos juntos. Mas
não foi fácil resistir aos ataques que vinham de
todos os lados. Nossa fama se espalhou logo e “inimigos” não
nos faltaram. Éramos considerados “defensores de bandidos”.
Impossível esquecer o dia em
que fomos denunciados por uma vereadora do bairro em que ficava
a Casa, acusando-nos, dentre outras coisas, de levar marginais
para o bairro. Intimados, os responsáveis pela Casa fomos
ao Fórum depor. Para nossa surpresa, o Promotor quis conhecer
a casa e solicitou uma reunião in loco, com os moradores
do bairro. Bendita reunião! O Promotor não só
elogiou o trabalho como disse que tudo seria melhor se houvesse
mais casas com o trabalho que fazíamos. Desde então,
o bairro se tornou nosso aliado. É verdade, nossos adolescentes
não na maioria das vezes extrapolavam, mas eram grandes
amigos dos que neles confiavam. Com o tempo, o que parecia impossível
se realizou: todos os adolescentes voltaram ao convívio
da família. Onde andam hoje e o que fazem, não sei.
Essa é uma das incontáveis
vitórias que a Pastoral do Menor pode celebrar ao longo
das três décadas de sua existência. Sua resistência
baseada na pedagogia do amor, da acolhida, do encontro, valeu-lhe
o respeito e admiração em todo o país. Oxalá
a Pastoral do Menor continue sendo a extensão do apelo
dos meninos e meninas em situação de risco que nos
perguntam: Será que posso contar com você? A lembrança
do Evangelho nos ajude a responder.
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