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Os
10 anos da Sideral FM
Pe.
Geraldo Martins
Quando
começamos a gestar a idéia de uma rádio comunitária
para Cachoeira do Campo, em 1997, houve entusiasmo de uns e incredulidade
de muitos. Os primeiros, fascinados, vislumbravam o quanto se
poderia alcançar para a comunidade com um meio de comunicação
tão próximo do povo como o rádio. Imaginavam
como ele poderia ser o espaço para ampliar a cultura e
os valores locais, fazer chegar a todos a realidade política
e social da comunidade, levar entretenimento e religiosidade às
famílias, democratizar a comunicação... Tudo
isso estava no horizonte de quem, já no primeiro momento,
conseguiu perceber o alcance de uma rádio comunitária.
Já
os incrédulos, sem ignorar essas possibilidades, colocavam
as dificuldades de ordem prática. Onde conseguir o recurso?
E quem vai falar na rádio? E a batalha junto ao Ministério
das Comunicações para conseguir a licença
de seu funcionamento? Vai ser uma rádio pirata?
Sem
ignorar o realismo desses questionamentos, um grande grupo arregaçou
as mangas e foi à luta. Orgulho-me de ter feito parte desse
grupo. Formamos a Associação Cachoeirense de Comunicação
e Integração (ACIC). A base de seu estatuto veio
lá de Mercês (MG) cuja paróquia já
estava mais adiantada no mesmo processo.
A
ansiedade era grande e a coragem ainda maior. Por isso, resolvemos
colocar nossa rádio no ar, mesmo sabendo do fechamento
de inúmeras Rádios Comunitárias pela Polícia
Federal ou por agentes da Anatel, às vezes com apreensão
dos aparelhos, violência e até prisões. Topamos
correr o risco e, assim, no dia 26 de março de 1997, uma
nova onda entrou no ar em Cachoeira do Campo. Parecia um sonho,
mas era real!
No
início, tudo foi um aprendizado. Os voluntários
se multiplicavam a cada dia. Os comentários eram só
elogios. É claro que havia temores, e quantos! Mas, um
pensamento dominava a todos: fazer da rádio um espaço
da comunidade. Adotamos o slogan: “Não basta estar no ar,
é preciso ser comunitária!” Daí, a preocupação
para que sua programação fosse diferenciada, comunitária.
Como
não ter saudades do Manhã Sertaneja, Cantando a
Vida, Momento Brasileiro, O pão nosso de cada dia, Mulheres
de Atenas, Cantinho da Criança, Pra ver a banda passar.
Impossível não nos lembrarmos também da cobertura
do Campeonato Distrital. Era emocionante ver a equipe de esportes
se desdobrando para transmitir os jogos. Seu esforço não
foi em vão sendo reconhecido pela Liga Esportiva de Ouro
Preto com um troféu pela cobertura do campeonato.
O
pão nosso de cada dia também tem história
para contar. Programa de entrevistas, por ali passaram deputados,
prefeitos, vereadores, lideranças populares, gente do povo.
Recordo-me de quando uma senhora do bairro Alto do Beleza pediu
aos locutores do programa que reclamassem a falta de água
no seu bairro. Os locutores fizeram melhor: chamaram a senhora
e pediram que ela mesma falasse. E como falou! Ao chegar ao seu
bairro, um grupo de pessoas estava próximo à sua
casa para dizer-lhe: “Nós escutamos você falando
no rádio!”. Sentiu-se cidadã.
A
criatividade se revelou naqueles que tiveram a idéia de
criar o SiderClub. Uma idéia genial para ajudar a manter
a rádio. Chegamos a ter, na época, 800 associados
que, mensalmente, contribuíam com R$ 1. Isso mesmo, um
real! Em cada rua, havia um responsável para recolher as
contribuições. Esse recurso somado ao que vinha
dos patrocínios é que ajudava a manter nossa rádio
no ar.
Mas
os tempos de sofrimento não tardaram. A rádio começou
a incomodar e logo chegaram à Anatel “denúncias
anônimas”. Resultado: nossa rádio foi fechada três
vezes. Após o segundo lacre, resolvemos abri-la, de novo,
num lugar escondido. Conseguimos emprestado um transmissor e fomos
para a “clandestinidade”. A curiosidade da população
para saber onde estava a rádio era enorme! Foi um tempo
de muita solidariedade.
Finalmente,
a persistência foi premiada com a licença emitida
pelo Ministério das Comunicações. Agora a
Sideral já poderia funcionar sem medo da repressão.
E ela voltou com força total para alegria de Cachoeira
do Campo. No último dia 25, com muita justiça, a
Diretoria promoveu uma grande festa comemorando os dez anos da
Sideral FM. Certamente ali se recordou sua história, seus
personagens e sua contribuição na construção
da cidadania de tanta gente.
Conto
essa história para servir de ânimo a tantos quantos
lutam pela democratização da comunicação
em nosso país e sonham ver sua rádio comunitária
liberada. É lamentável que o Governo ainda ceda
à pressão dos grandes conglomerados da comunicação
brasileira e não agilize a outorga para as milhares de
rádios comunitárias cujo processo estão a
mofar nas gavetas do Ministério das Comunicações.
À Sideral FM e às demais que comemoram sua vitória
cabe o imperioso dever ético de se somarem às que
estão nessa batalha pela licença junto ao Ministério
das Comunicações. É na soma dos pequenos
que está a força para derrubar os poderosos.
Parabéns
à Sideral FM que provou acreditar nessa máxima e,
por isso, rende a Deus ação de graças pelos
seus dez anos de vida.
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