Eu
era prisioneiro e você...
Pe.
Geraldo Martins
Eram 14:30 de uma quinta-feira.
No portão do presídio, quase uma centena de pessoas
esperava, ansiosa, a lenta chamada para a visita semanal. Uns
já estão aguardando a mais de uma hora. Depois de
darem o nome acompanhado de um documento e de terem indicado a
pessoa a ser visitada, não há outra alternativa
senão esperar a sua vez. Também eu estava ali para
visitar uma pessoa e sigo o processo normal sem me identificar
como padre. Pelo jeito, minha hora vai demorar muito, afinal fui
um dos últimos a chegar.
Aproveito o tempo para conhecer
a razão de uma ou outra pessoa que também aguardava
a chamada. Ao meu lado, uma senhora de semblante sereno e afável.
Timidamente pergunto quem merecerá sua visita. “É
meu filho”, diz sem constrangimento, mas com um sofrimento resignado.
“Por que ele está preso?”, pergunto meio sem graça.
“Droga”, responde-me. A idade dele? 20 anos. Termino a conversa
aí.
Falantes e desinibidas, chegam duas
jovens. Parecem conhecer bem a rotina da visita. “A quem vêm
visitar? Algum parente?”, inicio a conversa. “Viemos ver um amigo”,
respondem sem escrúpulos. Descobri, então, que o
jovem também tem 20 anos e está na cadeia porque
se envolveu numa briga e até trocou tiros com a polícia.
“Estragou a vida cedo”, lamentam as meninas que dão a impressão
de estarem convencidas de que seu amigo ficará um bom tempo
com a liberdade cerceada. Brinco com algumas crianças.
“E essa menina linda, como se chama?”. ”É menino!”, corrige-me,
imediatamente, a jovem mãe que aparenta 20 anos e leva
os dois filhos para ver o pai.
O tempo vai passando e meu horário
se tornando apertado. Quando menos espero, aproxima-se alguém
de mim. “O senhor é o padre Geraldo que trabalhou em Cachoeira
do Campo, não é?”, pergunta-me uma senhora muito
simpática. “Sim, sou eu mesmo”, disse. “Já assisti
muita missa com o senhor. Vim aqui acompanhar uma amiga. O pai
dela, de 75 anos, foi preso domingo porque estava com uma arma
no carro. Ele nunca fez nada contra ninguém. Só
comprou a arma porque foi assaltado três vezes”, conta com
muita dor no coração sem saber dar mais detalhes.
“Por que o senhor não fala que é padre? O senhor
pode entrar”, sugere-me ela. Resisto. De repente, ouço
meu nome de novo. “Padre Geraldo?”. À resposta afirmativa,
diz-me a interlocutora: “O senhor fez o casamento de minha tia,
em Ponte Nova”. Fiz uma breve viagem no tempo. Transferi-me de
Ponte Nova em 1995.
Volto a conversar com o porteiro.
Quando menos espero, aquela que me havia sugerido que eu me apresentasse
como padre, passa à minha frente e anuncia quem eu sou.
Senti meu rosto enrubescer, confesso, mas não pude evitar.
Depois de cinco minutos, já estava dentro do presídio.
No chão da sala de chegada,
os pacotes se avolumavam. A maioria de alimentos que os visitantes
levavam para os presidiários. Tudo e todos passam pela
revista dos policiais. Homens na sala da direita, mulheres na
da esquerda. Poupo os detalhes da revista que, sei, é necessária
e inevitável. Digo apenas que é muito constrangedora,
embora rápida. Seria essa a única forma de fazê-la?
Quando estou terminando, um guarda pergunta: “De onde conheço
o senhor?”. “De alguma igreja”, respondo sem dizer quem sou. “Ah,
o senhor é da Basílica de São José.
Foi o senhor quem batizou minha filha”, revela. “Como o mundo
é pequeno”, comenta um segundo policial. Pronto. Agora
posso visitar a pessoa que me fez estar ali.
O pátio interno do presídio
é bastante grande e fica bem no centro, cercado por telas.
Do lado de fora, junto às telas, muitos guardas. No pátio,
um misto de sentimentos. Alegria, lágrimas, dor, tristeza,
ansiedade. Crianças brincam com os pais presidiários
que matam saudade da família. Os gestos falam alto. Casais
namorando, abraços demorados, silêncios falantes.
Senti, naquele momento, que todos têm alguém que
os ama. Isso é maravilhoso!
No canto da tela, extremamente triste,
encontro a pessoa que fora visitar. Estava detenta há cinco
dias. Sua dor era dupla: de estar ali e de saber que não
receberá a visita nem do pai, nem da mãe, que são
separados. Converso dez minutos. Ou teriam sido vinte? Nem sei.
Procuro saber as razões que a levaram para a cadeia. Ela
fala quase aos sussurros. Chora mais do que fala. Conta-me sua
história. Acredito nela. Dou-lhe um abraço, lamento
não poder ficar mais. Despeço-me prometendo voltar
assim que puder.
No portão, ainda tem gente
para entrar e faltam apenas vinte minutos para o fim das visitas
que vão até às 16 horas. Entro no carro e
volto para casa. Dentro de mim, a voz de Cristo soa clara: “Eu
estava preso e você...”. Preciso visitar mais os irmãos
encarcerados.
<----
Volta a página principal ----->