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Liturgia e etiqueta social

Pe. Geraldo Martins

    Há alguns meses, fui abençoar um casamento numa determinada paróquia. Ao chegar à igreja, lá estavam algumas pessoas, homens e mulheres, muito bem vestidos. Os homens de terno escuro, gravata e as mulheres vestiam um conjunto, blazer e saia, da mesma cor do terno dos homens. Tratava-se de um uniforme, sem dúvida.
    Fiquei observando e percebi logo que se tratava de uma firma contratada para o cerimonial do casamento. Recebiam os convidados, indicavam os assentos, orientavam as testemunhas, davam dicas de como proceder na cerimônia. Imaginei: terei errado de lugar? Será aqui o casamento civil ou a recepção da festa? Não me enganara. A equipe fora contratada pelos noivos para orientar a cerimônia religiosa! Foi quando me dei conta de que essa prática está se espalhando para todos os lugares. A ousadia do capitalismo não tem limites.
    Nesse momento, outros questionamentos vieram à minha mente: onde está a equipe de acolhida da paróquia? Por que essas ‘agências’ estão assumindo o lugar das equipes da Igreja? Que formação litúrgica seus funcionários têm para orientar uma cerimônia religiosa? E, enquanto a noiva não chegava, demonstrando a comum falta de delicadeza da maioria das noivas nessas ocasiões, preferi perder-me nesses pensamentos a perder a calma, embora com muita dificuldade, confesso.
    A Pastoral Familiar e as equipes litúrgicas de nossas paróquias precisam repensar seu papel na liturgia do casamento. Afinal, a Igreja está cedendo o espaço religioso às etiquetas sociais que vão se sobrepondo às normas litúrgicas. As procissões de entrada, por exemplo, estão perdendo o sentido de memória da caminhada de libertação do povo de Deus e se tornam desfiles de testemunhas que aproveitam a oportunidade para exibirem o modelo novo, salvo raras exceções. É esta mesma equipe de cerimonial que dita as regras de como se sentar, como posar para as fotos, de que lado se deve ficar e por aí vai. As igrejas estão facilitando a dessacralização dos sacramentos, especialmente, do matrimônio. É uma pena!...
    Isso também se vê com abundância nas famosas missas de formatura. Nesse caso, acrescente-se o batalhão de fotógrafos e cinegrafistas. Muitos deles só vão à igreja nessas ocasiões. Já vi fotógrafos, na hora da missa, andando entre os bancos durante a proclamação da Palavra, ponto alto de toda celebração, para tirar fotos dos formandos. Um absurdo e total desrespeito à cerimônia. Para ganhar alguns bons trocados, dão-se as costas à Palavra de Deus sem nenhum escrúpulo. E ai do padre que chamar a atenção! Vão logo dizer: “É por isso que a Igreja Católica está perdendo fiéis...”.
    A Igreja não pode permitir que suas cerimônias sejam instrumentalizadas. Nossa fé é, essencialmente, familiar e comunitária. O mistério que as liturgias celebram, especialmente, a eucaristia, não pode ficar submetido a essas etiquetas sociais cada vez mais presentes em algumas celebrações católicas por meio dessas agências denominadas ‘Cerimonial’. Quem foi o cerimonial da primeira missa rezada por Jesus?
    É preciso que as equipes de liturgia assumam sua função. Do contrário, o espaço que lhes é próprio será tomado por essas firmas que, a despeito de toda formalidade, terão bem avaliados seus trabalhos pelos católicos e convidados que concebem a fé mais como ato social que como compromisso com Jesus Cristo.

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