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Luz e pedra

Pe. Geraldo Martins

    A arquidiocese de Mariana ainda pranteia a perda de seu pastor, dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. O sentimento, por um lado, é de orfandade, de vazio, de solidão, saudade. Por outro, reina também um sentimento de profunda gratidão e alegria pela obra deixada por dom Luciano em 18 anos de uma presença que a história perpetuará na memória e na vida da Igreja primaz de Minas Gerais.
    
Dom Luciano foi luz e pedra, no nome e na vida. Sua inteligência incomum o fez ocupar cargos e funções que envaideceriam a qualquer ser humano, exceto um místico e asceta com dom Luciano. Tal como a luz, ele estava no alto apenas para iluminar o caminho dos outros. Brilhava sem aparecer. Quem dele se aproximava, sentia renovada e renascida a esperança. Seu jeito manso e simples de acolher o aproximava de tal maneira das pessoas que lembrava a atitude de Jesus misturado com o povo, sempre atento às suas necessidades, sem tempo até para descansar.
    
Dom Luciano foi luz para a Igreja do Brasil e da América Latina quando emprestou sua inteligência para redigir textos, dissolver conflitos, interpretar os evangelhos para que a prática da Igreja fosse, cada vez mais, próxima à de Jesus.
    
Ele foi luz para os padres que nele encontravam um amor e uma compreensão que para muitos, indo além da medida, mais pareciam condescendência. Os retiros espirituais que pregava revelavam o homem de oração que era. Na eucaristia, no breviário e no terço, encontrava o melhor jeito de ser íntimo de Cristo.
    
Ele foi luz para os pobres e excluídos que, na expressão de dom Paulo Evaristo Arns, eram os únicos que sempre sabiam onde dom Luciano estava. Em dom Luciano, os pobres, especialmente as crianças, reencontravam o sentido da vida. Sua generosidade para com esses o levava a um despojamento que remete ao Cristo totalmente despojado na cruz.
    
Dom Luciano foi também pedra. Amou e viveu a fidelidade ao sucessor de Pedro. Não tergiversou na doutrina e nas orientações da Igreja da mesma forma que não se omitiu em questões que exigiam mais diálogo e discernimento a fim de não traírem o evangelho.
    
Diante de uma realidade brasileira marcada pela desigualdade e injustiça social, dom Luciano foi como pedra ao gritar, firme e forte, contra toda prática política e econômica que fazia crescer o fosso entre ricos e pobres. Não titubeou em condenar os que usavam o poder político para servirem a si mesmos e às classes dominantes. Condenou com veemência a ditadura militar e os horrores que praticou. Igualmente, denunciou o latifúndio que leva ao acúmulo de terras nas mãos de poucos e reclamou um reforma agrária com distribuição de terra para quem dela quisesse viver. Não negligenciou a luta dos indígenas e foi voz profética na defesa da demarcação de suas terras. Da mesma forma, foi companheiro dos atingidos por barragens e reivindicou de todos a solidariedade para com os encarcerados que vivem em condições subumanas nos presídios brasileiros.     Defensor dos direitos humanos, jamais duvidou do valor absoluto da vida. Com ternura e vigor, colocou-se de maneira intransigente contra o aborto e tudo que atenta contra a vida. Tinha a família como o lugar próprio de viver os valores do evangelho, a começar pela defesa da vida desde sua concepção.
    
Luciano Pedro, luz que não se apagará, pedra que não se quebrará. Nele, a Igreja do Brasil e, muito particularmente, a de Mariana continuarão a buscar inspiração para prosseguir a obra de Cristo, amando e servindo os pobres.

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