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Uma proposta de inclusão

Pe. Geraldo Martins

     Na Quarta-feira de Cinzas, a Igreja lançou, em todo o país, a Campanha da Fraternidade que, neste ano, traz o lema Levanta-te, vem para o meio! A proposta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil é chamar a atenção para a realidade dos 14 milhões de brasileiros que sofrem algum tipo de deficiência, física ou mental. O objetivo é ainda despertar em todos um compromisso de solidariedade em relação às pessoas com deficiência numa perspectiva inclusiva.
     O texto-base publicado pela CNBB aponta pelo menos dez situações desafiadoras enfrentadas pelas pessoas com deficiência que vão desde o direito de nascer ao de estudar e de trabalhar. De fato, o mundo dessas pessoas é totalmente desconhecido pela maioria dos que não têm nenhum tipo de deficiência física ou mental. Nesse sentido, a Igreja prestará um grande serviço ao propor que todos voltemos o nosso olhar para esse ignorado mundo dos que têm deficiência.
     Um primeiro equívoco de que devemos nos desfazer em relação aos que têm deficiência é vê-los como incapazes. Deficiência não é sinônimo de incapacidade. Igualmente errado é estabelecermos com eles uma relação de piedade ou de dó. Solidariedade e compaixão vão muito além desses sentimentos. Eles são sujeito de sua própria história e de nós querem um tratamento que os dignifique. Nosso auxílio não deve ir além do que sua deficiência exige.
     Outra atitude que merecerá correção de nossa parte é a identificação que fazemos da pessoa com a deficiência que ela tem. É nesse sentido que os bispos chamam a atenção para a diferença entre ‘ter uma deficiência’ e ser ‘portador de uma deficiência’. A pessoa ‘tem’ e não ‘porta’ uma deficiência como se fosse uma carga da qual pudesse se desfazer quando quisesse. Conhecer a terminologia correta para referir-se à pessoa com deficiência já significará um grande passo no respeito aos seus direitos e no resgate de sua dignidade. O mais importante, portanto, é ter consciência de que com deficiência ou sem deficiência, somos todos filhos e filhas de Deus, criados à sua imagem e semelhança e é assim que devemos ser identificados.
     Nem todos nascem com deficiência, sabemos disso. Todos conhecemos alguém que ficou paraplégico por causa de um acidente ou perdeu a visão, a fala ou um de seus membros por essa ou aquela razão. Seja qual for a circunstância, a família começa a ter um papel fundamental na vida dessa pessoa que, inesperadamente e, às vezes, inexplicavelmente, passou a ter uma deficiência. Lamentar ou ver a deficiência como uma cruz não ajuda em nada. Só faz aumentar a dor e o sofrimento de quem quer solidariedade, companheirismo, amor.
     Não obstante a visão preconceituosa que ainda perdura em relação aos que têm deficiência, hoje é cada vez maior o número dos que vencem a própria deficiência e dão testemunho do que são capazes. Pensemos, por exemplo, nos que atravessam as cidades em suas cadeiras de rodas, embarcam em ônibus, sobem escadas. Como as coisas seriam mais fáceis se tudo fosse adaptado a fim de ajudá-los naquilo que sua deficiência exige. Imaginemos, igualmente, a luta que não enfrentaram os que hoje mostram seu talento em várias áreas como a música, a arte, o esporte.
     Esses são os que já se levantaram, colocaram-se no meio e se incluíram numa sociedade que lhes é pouco afeita . Infelizmente, a minoria. O compromisso de todos que nos dizemos discípulos do Cristo é ir ao encontro dos que, por causa da deficiência que têm, encontram-se excluídos e dizer-lhes: ‘Levantem-se, venham para o meio!’. E isso não se faz apenas com palavras, mas com atitudes concretas que exigirão de nós conversão interior se ainda alimentamos preconceito e resistência em relação às pessoas com deficiência.

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