Manifestações,
Polícia e Imprensa
Pe.
Geraldo Martins
No Brasil e no mundo, independentemente
de seu caráter, as manifestações públicas
se tornam cada vez mais comuns e necessárias. Esse é
um direito reconhecido a todo cidadão e a qualquer organização.
Por isso, constantemente vemos as ruas cheias seja para comemorações,
seja para reivindicações e protestos. Num e noutro
caso há sempre riscos e é preciso estabelecer um
sistema de segurança que garanta a livre manifestação
dos cidadãos.
Toda manifestação,
sobretudo as de denúncia e de caráter reivindicatório,
tem como um de seus objetivos chamar a atenção da
sociedade para sua luta, suas idéias e despertar na população
o senso crítico em relação a algum assunto.
Quer dar visibilidade a realidades que, no seu juízo, ficam
escondidas em prejuízo à grande massa. Para atingir
suas metas, os organizadores dos protestos, quase sempre, aproveitam
ocasiões em que ocorrem grandes eventos que chamam para
si os holofotes da mídia e da opinião pública.
É uma estratégia muito bem pensada. É o que
está ocorrendo, por exemplo, com a reunião do Banco
Interamericano de Desenvolvimento em Belo Horizonte e a manifestação
dos movimentos sociais.
Tanto um evento quanto o outro precisam
da mídia para tornar públicos seus objetivos. Igualmente
a mídia precisa de fatos que sejam objeto de sua pauta
no dia a dia. Ela se alimenta do que é novidade. Porém,
nem sempre dá o mesmo peso e a mesma medida aos acontecimentos
que se contrapõem.
No dia 28 de março, 240 militantes
do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) saíram de
ônibus de Ponte Nova em direção a Itabirito.
A partir daí, iniciaram uma marcha para a capital mineira,
palco da assembléia anual dos governadores do BID. O MAB
deu nome à sua manifestação de Marcha: água
e energia pela soberania do Brasil. Enquanto caminharam pela BR
040, escoltados pela Polícia Militar, apenas quem transitava
pela rodovia tomava conhecimento da manifestação.
A imprensa, preocupadíssima com a reunião do BID
nos confortáveis palácios da capital, não
se prestava a acompanhar os manifestantes que tinham por auditório
a vastidão da BR.
Próximos a Belo Horizonte,
no dia 31, o primeiro impasse. Alegando que o lugar escolhido
para acamparem (em frente ao BH Shoping, numa área próximo
à Copasa) não era o mais adequado, a Polícia
Militar parou os marchantes, desviou o trânsito para o Anel
Rodoviário e começaram as negociações.
Estava criado o fato que a imprensa precisava para dar publicidade
à Marcha. Só agora ela começava a virar notícia.
É verdade que mais cedo um canal de TV havia visitado brevemente
o movimento. Teve que voltar rápido porque precisava cobrir
o encontro do BID.
Barrados pela PM, os Atingidos sentaram-se
no asfalto, tiraram o violão e a sanfona e começaram
a cantar. Sabiam que a negociação seria longa. Ninguém
conseguia engolir as razões das ordens que vinham de cima.
Depois de duas longas horas, retomam a caminhada. Vão acampar
onde haviam planejado. O grito de vitória foi inevitável.
Tudo na mais perfeita ordem.
A decepção veio pela
forma como a imprensa divulgou o fato. A Rádio Globo CBN,
instantaneamente, dá como manchete que um grupo de manifestantes
impedia o acesso dos carros a Belo Horizonte pela Savassi. Mentira!
Foi a polícia que parou a marcha e desviou os carros. No
dia seguinte, o Estado de Minas, que mandou apenas um fotógrafo
ao local, se limitou a fazer apenas uma foto-legenda. O espaço
de duas ou três páginas já tinha dono: o BID.
Já na capital, junto com
militantes de outros movimentos sociais, a manifestação
estava no centro da cidade na segunda, dia 3. Tudo era pacífico
até que começou o tumulto e a violência. Descrever
o episódio apenas pelo que mostra a mídia é
muito perigoso. E o que ela não mostrou? Por exemplo, a
Rede Globo mostrou policiais machucados, mas não mostrou
um policial arrastando um manifestante e jogando-no no camburão
dizendo-lhe impropérios. A Alterosa mostrou pela internet.
Não há como pensar
a sociedade sem manifestações, Polícia Militar
e Imprensa. Todas são legítimas e necessárias.
Deveriam ser complementares e parceiras umas das outras. A imprensa
não deveria privilegiar determinados segmentos sociais
em detrimento aos movimentos populares e de suas lutas e reivindicações.
Muito menos deveria substituir a notícia das razões
da manifestação pelos confrontos com a polícia.
Ninguém deveria saber do movimento a partir do confronto.
Os Movimentos Sociais só são notícia quando
a polícia entra em confronto com eles? É por isso
que muitos os rejeitam sem conhece-los.
Se aos Movimentos Sociais cabe o
direito de protestar, à polícia cabe o dever de
dar-lhes segurança e assegurar-lhes, sem confusão,
esse direito da mesma forma e com a mesma competência com
que o fazem para os encontros das elites políticas e econômicas
do país e do mundo. Uma democracia só cresce e se
solidifica quanto os atores sociais são fiéis aos
princípios da ética e do respeito ao outro. Isso
vale para todos.
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