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Ele está no meio de nós

                                                            Pe. Daniel Marcos Lima (*)

      Desde o dia 08 de dezembro, iniciou-se, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, a adoração perpétua diurna da Santíssima Eucaristia. É um grande presente, dado a toda cidade de Barbacena e um pedido do saudoso papa João Paulo II, em sua Carta Encíclica, “A Igreja vive da Eucaristia”.
      Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja experimentou um grande reflorescimento da vida eucarística, principalmente com a reforma litúrgica e a compreensão de que a missa não é celebrada apenas pelo sacerdote, mas todo o Povo de Deus é também um Povo Sacerdotal. Compreendendo melhor a Eucaristia, a Igreja compreendeu melhor a si mesma e estimulou nos fiéis o engajamento nos diversos ministérios, ou serviços, como encarnação do sentido da Eucaristia, celebrada todos os dias.
      A Eucaristia é o centro da vida da Igreja, não apenas porque é o sacramento da presença real de Jesus Ressuscitado com sua Igreja, mas também porque a Eucaristia ensina à Igreja o que ela deve ser. Na Eucaristia nos é dado um projeto de vida cristã pessoal e comunitária.
      A Eucaristia é, antes de tudo, o sacramento do amor de Deus que amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho Único. Portanto, com a Eucaristia, experimentamos, na vida, a força transbordante e transformadora do amor de Deus. Ora, esta “força transformadora de amor, em nós, é o Espírito Santo: Eis a experiência fundante do ser cristão. A Igreja não é o grupo daqueles que seguem uma doutrina comum, ou praticam determinados ritos; nem apenas uma instituição que propaga um determinado ideal de vida. A Igreja é o grupo daqueles que experimentaram, de forma misteriosa, o amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo e querem responder a este amor, enquanto possível, com o dom de si mesmos. O amor do Pai, manifestado no Filho e derramado em nossos corações pelo Espírito faz da Eucaristia o caminho de participação na Vida Trinitária, que é a meta de toda ação evangelizadora da Igreja.
      Na Eucaristia, o Cristo, Senhor nos revela a profundidade e a extensão do serviço daqueles que querem ser seus discípulos: O serviço deve ser sem limites, até ao dom da própria vida. Para servir é preciso despojar-se de tudo, abrir mão de todas as coisas. O dom de nós mesmos não é apenas caminho para a felicidade e a vida, mas é a própria felicidade; é fonte de vida: “Quem quiser, salvar a sua vida, vai perde-la, mas quem souber gastar a sua vida, por amor de mim, este vai encontra-la”.
      Assim a Eucaristia faz a Igreja ser diferente de todos os outros grupos, partidos políticos ou instituições, enquanto ensina que a Igreja é a comunidade daqueles que estão dispostos a abrir mão de tudo, até da própria vida, para servir: A Eucaristia é dom e projeto de amor!
O caminho de Emaús é o caminho Eucarístico daqueles que querem ser discípulos: Estar com Jesus, caminhar com Ele; alimentar-se Dele e depois anuncia-Lo. Contemplação, Comunhão e Anúncio são as três fases do discipulado cristão. Se falta uma delas, não atingimos a maturidade cristã.
      É precisamente este o sentido da adoração à Santíssima Eucaristia: Adorar, contemplando; adorar comungando e adorar anunciando. Adorar o Cristo na Eucaristia significa reconhece-lo como “o Senhor” de três modos: Reverenciando sua presença (contemplação – Ele está no meio de nós); Partilhando de sua intimidade, como o galho unido à videira (Comunhão – permanecer Nele e Ele em nós); proclamando o seu Senhorio de amor e serviço (Anúncio – Vão e façam com que todos os povos sejam meus discípulos).
      Este caminho de três fases precisa ser sempre de novo percorrido por nós, até que, como São Paulo, possamos dizer, uma dia: “Combati o bom combate; terminei minha carreira; guardei a fé”; ou ainda: “Eu vivo, mas já não sou eu quem vivo; é o Cristo quem vive em mim.”
      Assim, a contemplação aprofunda a comunhão e revigora o anúncio. Aquele que não sabe discernir a presença real de Jesus, na Eucaristia, não poderá entrar em comunhão com Ele, nem com os irmãos (1Cor. 11,29). Sem cair em manifestações litúrgicas triunfalistas, os fiéis devem ser sempre estimulados a reconhecer a presença real de Jesus na Eucaristia. Jesus instituiu a Eucaristia, dizendo “tomai e comei”; “tomai e bebei”. Mas também disse: “Façam isto em memória de mim”, ou seja, para atualizar a minha “Presença”. Ele quer alimentar o discípulo e estar com sua Igreja. “Comunhão” e “Presença” são dois aspectos inseparáveis do Mistério Eucarístico.
      No passado, a Igreja supervalorizou a “presença” em detrimento da “comunhão”. Tanto que, aos domingos de tarde, o povo se reunia, nas Igrejas paroquiais, para fazer adoração ao santíssimo, mas só comungava uma vez no ano, por ocasião da Páscoa. Comungar com freqüência era uma prática pouco recomendável.
      Hoje, graças a Deus, a comunhão freqüente é estimulada. Mas infelizmente, houve um esvaziamento das práticas litúrgicas, destinadas a realçar a Presença Real de Jesus, na Eucaristia. O resultado é que, para muitos cristãos, a Eucaristia é apenas “alimento”, “sustento” e “força”. Enfraqueceu-se a noção de “comunhão”, justamente porque enfraqueceu-se a noção de “presença”: Na Eucaristia, eu não me alimento de Jesus, para que eu possa absorve-lo e absorver sua força. Na Eucaristia, é o Cristo quem me absorve: Sua Presença em mim me enche do seu amor; me inquieta e me estimula ao serviço como meio de comunhão com os irmãos, nos quais eu também reconheço sua presença.
      A adoração eucarística, é claro, não é a única forma de estimular, nos féis o reconhecimento da Presença Real de Jesus na Eucaristia e leva-los a uma comunhão mais profunda, mas, sem dúvida, é uma das formas mais eficazes, se bem orientada e conduzida.

                 * Pároco de Nossa Senhora da Assunção em Barbacena - MG


Atualizada em 21 de dezembro de 2006

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